Santa Isabel do Ivaí - Pesquisadores da Escola Paulista de Medicina retornam em setembro para Santa Isabel do Ivaí (92 km de Paranavaí), onde o surto de toxoplasmose está servindo de orientação para a comunidade científica mundial. Neste retorno, os pesquisadores pretendem levar novos equipamentos para exames de fundo de olhos. O objetivo é filmar os exames para detalhar o diagnóstico das lesões. ‘‘Na próxima visita vamos nos concentrar nos 50 casos mais graves’’, disse ontem à Folha o médico oftalmologista e pesquisador Cláudio Silveira.
O surto em Santo Isabel do Ivaí, que se tornou público em dezembro, foi causado pela água contaminada, como comprovou laudo do Ministério da Saúde. No último sábado, Silveira e a também oftalmologista pesquisadora Cristina Muccioli examinaram 450 pessoas atingidas pela toxoplasmose. Resultado parcial da pesquisa demonstrou que pelo menos 15% dos infectados desenvolveram algum tipo de lesão nos olhos. O protozoário da toxoplasmose se instala nos olhos e pode causar problemas como a cegueira total. Das pessoas examinadas, seis eram bebês.
Segundo Silveira, a toxoplasmose atinge cerca de dois bilhões de pessoas em todo o mundo. O surto da doença em Santa Isabel do Ivaí chama a atenção dos cientistas por causa da ‘‘riqueza’’ de informações captadas por meio de exames de sangue e da visão. ‘‘O que nós estamos observando no município nunca ninguém viu e só agora se transforma em estudos’’, afirmou Silveira.
O médico disse que o protozoário da toxoplasmose é complexo e leva os pesquisadores da área imunológica a diversos problemas, inclusive na criação de vacinas e medicamentos. ‘‘O parasita engana o sistema imunológico porque se protege com proteínas do próprio indivíduo que ele ataca’’, explicou o pesquisador.
Silveira é de Erechim (RS), onde a toxoplasmose é considerada uma doença endêmica. Lá, o problema está no consumo de carne. Em julho, a ‘‘American Journal of Oftalmology’’ – principal revista científica da área – publica um estudo de Silveira. O pesquisador conseguiu constatar que o uso de medicamento à base de sulfa reduz em 75% as lesões oculares recidivas (reaparecimento da doença).
Depois de concluídas, as informações de Santa Isabel do Ivaí também serão publicadas e divulgadas para a comunidade científica porque trazem avanços significativos como no diagnóstico de lesões oculares. Até a década de 90, a literatura clássica não tinha informações sobre lesões em adultos provocadas pela toxoplasmose. Os relatos só foram possíveis a partir das pesquisas realizadas em Erechim.

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