Pesquisadores estudam efeitos do racismo
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terça-feira, 17 de abril de 2018
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 

Se você se autodeclara negro ou pardo, tem entre 18 e 30 anos, seja homem ou mulher, e já sofreu com racismo ou discriminação racial, o seu depoimento é muito importante para um grupo de pesquisadores de Londrina. Eles estão entrevistando voluntários para estudar os efeitos psicológicos do racismo e, posteriormente, formar um grupo de apoio para acolher, fortalecer e permitir que as vítimas superem o estado emocional através de práticas psicoterápicas. Além disso, haverá um trabalho conscientização da população em geral.
"Nas pesquisas que estamos realizando, o entendimento básico é de que a experiência de uma situação de humilhação social produz efeitos psicológicos graves e duradouros. Alguns autores vão chamar de transtorno de estresse derivado ou relacionado ao racismo", comenta Hernani Pereira dos Santos, docente da disciplina de Psicologia Humanista e Questões Étnico-Raciais, do curso de psicologia da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) no campus Londrina. Ele coordena o projeto de pesquisa "Compreensão do sofrimento psíquico de pessoas vítimas de racismo através de entrevistas", com a participação das alunas Camilla Andressa de Paula (4°ano) e Isabela Moro Nascimento (3° ano).
Desenvolvido em duas frentes (vivências emocionais e trabalho clínico), o projeto consiste em entrevistas (30 voluntários) e uma revisão da produção bibliográfica nacional. "Percebemos que há pouca informação no aspecto clínico. Temos encontrado apenas alguns artigos em língua inglesa que tratam de procedimentos psicoterapêuticos", diz o pesquisador.
Sobre as vivências emocionais, Santos explica que o objetivo é identificar quais são as experiências dessas vítimas no ato do racismo e depois dele. "Queremos saber por exemplo, se ela procurou ou não ajuda e em que contexto ocorreu a situação. A ideia é fazer com que a pessoa interprete essa vivência", afirma.
Uma situação de racismo ou discriminação racial pode ser desde uma agressão verbal até um mal estar por questão de identidade. "Queremos entender essa variedade de contextos", completa. As entrevistas começaram na semana passada e seis voluntários já foram ouvidos. Essa etapa seguirá até o mês de junho.
"Estamos conseguindo entender o sofrimento dessas pessoas, pois é algo que não estudamos no dia a dia. O racismo e a discriminação racial são complexos e o contato com pessoas que passaram por isso tem ajudado muito na formação do meu pensamento crítico e em temáticas étnico-raciais", diz a estudante Paula.
O próximo passo dos pesquisadores será entender quais são as estratégias psicoterapêuticas mais eficazes para trabalhar com esse público e propor à universidade trabalhos relacionados ao tema. A previsão para concluir a pesquisa é em junho de 2019.
"A pesquisa também é uma forma de nos informar sobre a realidade local (Londrina e região) e trabalhar o assunto pensando na formação dos alunos", acrescenta Santos.
DIFICULDADE
Na fase de entrevistas, Santos tem esbarrado em uma dificuldade no que se refere à apresentação de voluntários. "É um tema delicado e muitas pessoas têm dificuldade de se posicionar, não se sentem à vontade para relatar o sofrimento, não acreditam que é uma condição que possa ser trabalhada ou não pensam que irá se repetir", comenta.
No entanto, ele ressalta que alguns autores de trabalhos científicos sobre transtorno de estresse relacionado ao racismo compararam o sofrimento dessas vítimas com o de pessoas que sofreram qualquer outro evento traumático. "Eles chegaram a uma semelhança no estado emocional. Então, queremos também mostrar com essa pesquisa o quão drástico é para uma pessoa passar por uma situação dessa e oferecer os melhores recursos para que ela possa superar esse sofrimento", destaca o pesquisador.
Vale lembrar que o racismo é crime no Brasil. Nos termos do artigo 5° da Constituição Federal, está claro que "a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei".
'Sempre fui questionada sobre minha cor'
Criada na Europa até os 10 anos de vida, a estudante de direito Fabíola (nome fictício) guardou na lembrança os momentos em que foi tomada pelo sentimento de inferioridade e problemas de autoimagem. "Sempre estive inserida em lugares onde os brancos são predominantes e sempre fui questionada, por exemplo, sobre o porquê da minha cor, do meu cabelo não 'mexer'. Me chamavam na escola de cor marrom, de cocô. E ainda criança acreditava que se eu alisasse o cabelo estaria mais perto do que era ser branca", recorda.
Todas essas marcas da infância levaram a estudante a participar da pesquisa da PUCPR Londrina, que busca traçar os efeitos psicológicos do racismo ou discriminação racial. "Hoje ainda sinto o racismo, mas de forma mais sutil. Acho que o racismo se transformou de anos para cá porque o politicamente correto ganhou status. As pessoas deixaram de falar muito, mas isso não significa que mudaram seu modo de pensar", afirma.
Fabíola diz que a ofensa para ela é quando fazem comentários sobre sua aparência, pois, segundo ela, para a maioria das meninas negras esse é o primeiro traço de zombaria.
"Acho que seria muito importante se esse grupo de apoio que os pesquisadores pretendem formar fosse direcionado também para crianças porque é a partir dessa fase que os comentários começam. Quando uma criança sofre preconceito, o impacto emocional é muito grande. Ela não compreende por que é apontada como diferente, pois entende que todo mundo é igual", sustenta.
SERVIÇO: Os interessados em participar da pesquisa devem entrar em contato pelo telefone (43) 99933-0127 (Hernani)


