Pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) encontraram mais exemplares da espécie nova de cascudo descoberta recentemente no rio Tibagi, em Ortigueira (113 km ao sul de Apucarana). Aproveitando a seca, que acabou facilitando a coleta de peixes, professores e alunos de pós-graduação conseguiram confirmar que aquela região é habitat do cascudo ainda não descrito na literatura científica.
A reportagem da Folha acompanhou a primeira visita ao local, realizada no último dia 22 de julho, quando a ictióloga Sirlei Bennemann deparou-se com o peixe em um trecho do Tibagi, próximo à aldeia kaingang de Mococa. Após análise em laboratório da UEL, especialistas em cascudos confirmaram que tratava-se de espécie nova. Dessa vez, a coleta foi feita no ponto onde está prevista a construção da Usina Hidrelétrica (UHE) Mauá, perto da divisa entre Ortigueira e Telêmaco Borba.
''Encontramos mais duas amostras da espécie nova e dá para concluir que aquele local pode ser preferencial para ele. Tem cascudo que tem em todo lugar, até no Lago Igapó. Este não, é uma espécie muito particular e muito exigente do ponto de vista da qualidade da água'', explicou Sirlei. Ela frisou que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) elaborado pela empresa responsável pelo projeto da UHE Mauá não traz nenhuma referência a essa espécie.
Além dela, foram coletadas outras 17 espécies no rio Tibagi e seu afluente, o Barra Grande. Mesmo afetado pela seca, o cenário local foi definido como ''um paraíso'' pela professora Josefa Yabe, do departamento de Química da UEL, que integrou o grupo de pesquisadores. ''Conheço muitos rios brasileiros e posso dizer que o Tibagi é um dos mais bonitos'', considerou.
Josefa alertou que a construção de uma hidrelétrica no local, com alagamento do rio e destruição de grande número de árvores, tornará ainda mais sérias secas como a que estamos vivenciando este ano. ''Eu nunca vi uma situação como esta. E pode piorar se cada um de nós não pensar em sua responsabilidade com o meio ambiente'', frisou.
O Ministério de Minas e Energia marcou para o dia 10 de outubro o leilão que irá ofertar a concessão da UHE Mauá, entre outras. Em dezembro do ano passado, a Justiça Federal de Londrina concedeu liminar excluindo a UHE Mauá do leilão realizado à época. A justificativa foi de que era necessário um estudo mais detalhado de toda a bacia do Tibagi e de que a aprovação não era de competência do Estado, mas do governo federal via Ibama uma vez que o empreendimento irá afetar reservas indígenas.
A Frente de Proteção do Rio Tibagi, constituída por diversas entidades e representantes de instituições como a UEL e a Universidade Estadual de Maringá (UEM), já colheu cerca de 6 mil subscrições para o abaixo-assinado contrário à construção da Usina Mauá. De acordo com Sirlei, o documento e os relatórios das pesquisas realizadas em Ortigueiras serão encaminhados ao Ministério Público Federal (MPF).

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