Pesquisadores apresentam trabalhos sobre população negra
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quarta-feira, 28 de novembro de 2018
Simoni Saris/Reportagem Local 
A criação de políticas afirmativas como o sistema de cotas para negros nas instituições de ensino superior possibilitam o acesso à universidade, mas uma vez dentro do ambiente acadêmico, os estudantes se deparam com inúmeras barreiras relacionadas ao preconceito racial. O Grupo de Trabalho de Combate ao Racismo realizou nesta terça-feira (27) uma reunião ampliada em que foram apresentados trabalhos de mestrado e doutorado sobre a situação da população negra em Londrina e no Brasil. Os trabalhos foram produzidos pelos pesquisadores do Neab (Núcleo de Estudos Afrobrasileiros), da UEL (Universidade Estadual de Londrina).
Graduado em ciências sociais pela UEL e professor na Unespar (Universidade do Estado do Paraná), Alex Sandro Eleotério lembra que desde a entrada na UEL, na entrevista de homologação, quando o aluno deve verbalizar que é negro pela primeira vez, começou a refletir. "E aí vem a pergunta sobre o motivo de ter tentado uma vaga pelo sistema de cotas e não pelas cotas de classe. Esse é o momento que você começa a refletir sobre essa questão", comenta.
Em 2006, quando ingressou na universidade, na turma de 40 alunos, dois eram negros. "No cotidiano você começa a se questionar por que não vê os negros na universidade e a questão das cotas também traz essa discussão para o ambiente acadêmico. E aí você acaba se inserindo nos debates mesmo sem querer." Os questionamentos sobre a situação dos negros na universidade o aproximaram dos coletivos de estudantes negros, que surgiram como espaços de reflexões críticas e acolhimento aos universitários cotistas e não cotistas com o objetivo de denunciar e barrar o preconceito e a discriminação racial. Os coletivos foram, inclusive, objeto de estudo de Eleotério.
"As pessoas ainda têm muita dificuldade de entender o que é o racismo. Desnaturalizar é um processo bem árduo", ressalta ele, que durante a exposição de seu trabalho "O Engendramento de uma nova sociabilidade: as políticas de ação afirmativa e suas influências no contexto acadêmico" também relatou o sofrimento psíquico "muito forte" pelo qual passam os negros no ambiente universitário, situação que o levou a se aproximar, em seus estudos, da psicanálise.
Na Howard University, nos Estados Unidos, onde Eleotério fez o doutorado, os negros representavam 96% do corpo docente e discente. "Foi quando eu percebi o quanto o racismo me trava porque lá eu podia pensar só como estudante. E a minha parte cognitiva, as reflexões, tudo fluiu muito bem. Aí eu fui perceber que lá você não se pensa como negro, eu era o Alex e isso ocupa menos a sua cabeça."
"A ação afirmativa tem a potencialidade muito maior de transformação social. A diversificação do grupo traz novos problemas, propicia a discussão e traz modificações para os currículos", disse o Nikolas Gustavo Pallisser Silva, graduado em ciências sociais pela UEL e que apresentou o trabalho "As ações afirmativas como tensão à estrutura universitária: o caso da UEL (2004-2018)".
O sistema de política de cotas começou a ser implementado nas universidades brasileiras no início dos anos 2000. A UEL foi a quarta instituição do País a adotar o sistema de reserva de vagas para negros. Hoje, das 38 universidades brasileiras, 35 têm políticas afirmativas, o que explica a evolução do número de brasileiros diplomados quando se observa os dados referentes à raça. Em 2000, 9,38% da população branca possuía diploma de ensino superior contra 2,22% de negros (pretos e pardos). Em 2017, eram 22,9% de brancos e 9,3% de negros.
O número de estudantes negros matriculados em cursos superiores no Brasil também cresceu de 11% em 2011 para 34% no ano passado. Esses percentuais foram calculados sobre a totalidade da população brasileira universitária. "Nos próximos quatro ou cinco anos, deve haver um salto nesses números. Se não houver, vamos precisar analisar a evasão", disse Eleotério.


