Pesquisador usou veneno de jararaca para fazer remédio
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quinta-feira, 19 de abril de 2001
Telma Elorza De Londrina 
Ele é um dos mais respeitados pesquisadores brasileiros, com vários prêmios internacionais no currículo, aplaudido e aclamado no exterior. Corre a informação, entre a comunidade científica, que pode ser indicado para o Prêmio Nobel de Medicina, por sua descoberta há cerca de 20 anos do princípio ativo a partir do veneno da cobra jararaca do medicamento Captobril, um dos remédios mais importantes no tratamento da hipertensão e prevenção do infarto. Sérgio Henrique Ferreira, médico farmacologista, professor titular da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto.
O pesquisador minimiza sua possível indicação para o mais famoso dos prêmios na área científica. Não estou interessado em ser Prêmio Nobel. Principalmente por algo que fiz há 20, 30 anos, quando era um garoto. Não vejo sentido nem possibilidade disso, disse. Até a paternidade do Captobril ele não quer assumir sozinho. O que fiz foi apenas abrir caminho para o desenvolvimento de um medicamento. A substância que a gente tinha nem podia ser ingerida. Quem desenvolveu mesmo foi a indústria farmacêutica americana, frisou.
Para ele, a descoberta que o veneno de jararaca tinha poderes para controlar a hipertensão foi apenas uma questão de estar no ambiente certo e saber observá-lo. Ninguém inventa nada. Comecei a trabalhar com isso porque o chefe do laboratório na época, Maurício Rocha e Silva, pesquisava outros usos do veneno. Foi só isso, afirmou. O pesquisador disse que este é um exemplo do subdesenvolvimento do Brasil. Nós não temos capacidade nem de aproveitar as nossas idéias. Nós importamos e embalamos remédios, temos montadoras de carros e achamos que somos industrializados, criticou.
Ferreira defende a união entre universidades e desenvolvimento tecnológico, desde que, é claro, mantida sua autonomia. Desde sua criação, as universidades vêm servindo como base para as indústrias. O problema é que a pressão da indústria pelo desenvolvimento de produtos anda cada vez maior. E a atitude criadora do indivíduo é restringida pela necessidade de criar projetos, afirmou. Segundo ele, a figura clássica do pesquisador que passa anos atrás da fórmula correta está acabando. E deve acabar de vez, quando a indústria imprimir este ritmo às universidades. Ela (indústria) está forçando as universidades a preencher buracos, garantiu.


