Depois que cientistas reunidos no 17º Congresso Internacional de Câncer, no Rio de Janeiro, relacionaram as causas da doença com o hábito alimentar, a discussão sobre o assunto foi retomada e foi assunto das mais diversas rodas, além de estar estampada nos veículos de comunicação. E, claro, muitos alimentos foram colocados na berlinda. De carne vermelha, para desgosto dos pecuaristas, nem é preciso falar. Ela continua sendo recomendada com muita moderação.
E quem imagina estar isento de determinados problemas de saúde só porque come frutas e verduras em abundância, pode estar cometendo um erro. Não basta só isso. É necessário saber a procedência do que se ingere. Quem poderia imaginar que a batata pode causar transtornos à saúde? E a uva itália? Pois é. Elas são colocadas na lista dos não recomendáveis, juntamente com o morango e o tomate, pelo pesquisador Armênio Khatounian, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), em Londrina. O pesquisador é um estudioso de assuntos como ambiente, alimentação e produção agrícola.
‘‘Para quem quer, realmente, seguir uma boa dieta, alguns produtos devem ser proibidos: a batata inglesa, o tomate, o morango e a uva itália. Dificilmente esses produtos estarão no mercado sem resíduos de veneno’’, alerta o pesquisador. Mas não é só. Hortaliças vendidas fora de época, em geral, contêm mais veneno.
O difícil é saber qual é a época de cada hortaliça ou fruta. Hoje, se encontram nos mercados qualquer produto de janeiro a dezembro. ‘‘Para saber isso a pessoa tem que ser uma enciclopédia. A sociedade se moldou à era dos venenos, evidenciada pela uniformização da dieta. Perdeu-se a noção da época da alface ou da manga’’, diz Khatounian. Mas ele dá uma dica: o ideal é consumir produtos orgânicos, cultivados sem agrotóxico.
O acúmulo de agrotóxico no organismo pode levar a diversos problemas. Khatounian comenta sobre o livro lançado recentemente, ‘O Futuro Roubado (LPM Editora, dos autores Colborn, Peterson e Myiers), que compila um grande número de trabalhos sobre poluição industrial e resíduos agrotóxicos sobre o meio ambiente e a saúde do homem.
‘‘Os autores concluíram que a relação mais importante entre os poluentes e a saúde do homem não é com o câncer, e sim com o sistema hormonal. Uma das consequências é a queda na viabilidade do sêmen humano.’’ Contornar 100% o problema, admite Khatounian, é impossível. ‘‘Hoje tem veneno espalhado pelo mundo inteiro’’.
Nem sempre um local tido como natural, sem a ação poluente, pode estar livre da contaminação. Um exemplo citado pelo pesquisador de como os poluentes podem se concentrar e agir longe da fonte poluidora está no Pólo Norte.
Segundo Khatounian, a poluição dos rios da América do Norte apresentam uma concentração relativamente baixa de PCB - um poluente usado pela indústria química e elétrica. Como o produto é mais solúvel em gordura do que em água, sua concentração aumenta na medida em que é ingerido pelas algas, que servem de alimentos para pequenos peixes, que por sua vez alimentam peixes maiores e assim sucessivamente até chegar às focas, que formam a base da alimentação dos esquimós (povo que reside no Pólo Norte).
Por ter uma camada grossa de gordura, a foca concentra de forma excessiva o PCB e acabou contaminando os esquimós. ‘‘Possivelmente, os filhos dos pais contaminados apresentarão alterações hormonais importantes’’, comenta o pesquisador.
Ele ressalta que a dieta atualmente está intimamente ligada a produtos muito processados. ‘‘Nossa dieta sofreu um processo de simplificação que se acentua a partir do desenvolvimento da indústria alimentar. O homem primitivo consumia centenas de espécies botânicas, ingerindo nutrientes para seu corpo e, junto, os princípios medicamentosos que essas plantas contêm.’
A base da alimentação do homem moderno, diz Khatounian, é amido, gordura, açúcar e sal, além de uma quantidade crescente de proteína animal. As hortaliças e frutas ocupam um pequeno espaço na maioria das geladeiras. O consumo de alimentos processados também tem destaque nos cardápios atuais. ‘‘Não consumimos mais alimentos da forma como eles vêm da natureza.’’
O pesquisador aponta como alimentação ideal o consumo de cereais integrais, leguminosas (feijão, lentilha, ervilha, grão-de-bico, etc.), quantidades moderadas de produtos animais e frutas e verduras em abundância. Segundo ele, nas regiões em que essa dieta é obedecida inexistem determinadas doenças. Na China, por exemplo, não existe diabetes, a incidência de doenças crônico-degenerativas e de cárie é baixa; e também não há problemas de colesterol alto. ‘‘O inverso pode ser observado em países como Estados Unidos e Brasil.’

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