Pesquisa traz relato de mulheres lutadoras
Silvana Leão
De Londrina
Apesar das pesquisas indicarem que a mulher ainda não obteve a tão sonhada igualdade de direitos e o dia-a-dia mostrar que muitas são obrigadas a lutar contra a discriminação, uma boa notícia está chegando até os londrinenses nesta 8ª Semana Municipal da Mulher. Pesquisa realizada pela Secretaria Especial da Mulher, divulgada ontem à noite na Associação Médica de Londrina, mostra que os movimentos femininos desenvolvidos no município nos últimos 30 anos contribuíram de maneira particular para as conquistas sociais e políticas ocorridas no País.
O trabalho resultou no livro Mulheres de Londrina: lutas sociais e políticas de 1970 a 2000. Em sua apresentação, a publicação traz texto da socióloga Moema Toscano, do Rio de Janeiro, lembrando que a trajetória percorrida pelas londrinenses se diferencia, primeiro, pela origem de classe das mulheres que assumiram a liderança do movimento.
A socióloga afirma que enquanto na maioria das experiências brasileiras quem sempre esteve à frente foram as mulheres da burguesia e da classe média alta, em Londrina a liderança tem origem nos movimentos sociais de base, nas organizações políticas de esquerda e na ala mais atuante da Igreja Católica. Além disso, lembra, os movimentos organizados femininos não foram esvaziados pela sua absorção por parte do Estado, como aconteceu em outros centros. Finalmente, Moema Toscano observa que a experiência de Londrina não foi devastada pela burocratização, que tem emperrado a engrenagem dos conselhos e coordenadorias no resto do País.
Para a secretária Especial da Mulher do município, Regina Stella Spagnuolo, a pesquisa irá trazer subsídios para os trabalhos realizados dentro da secretaria e apontar caminhos. Através dela podemos compreender melhor o nosso papel junto às organizações da mulher.
Realizado durante seis meses, o trabalho foi coordenado pelas sociólogas Silvana Mariano e Elaine Galvão, que acreditam ter revelado uma história que em geral não é contada. A pesquisa mostra esta luta, que contribuiu para a criação de uma nova identidade da mulher, dizem.
O livro que resultou da pesquisa tem 103 páginas, 10 delas ocupadas pela história e depoimentos de nove mulheres que participaram ativamente do movimento de mulheres em Londrina: Dora Barnabé, Elza Correia, Lygia Pupatto, Maria José Barboza (Mazé), Maria Pinheiro Pereira (Lina), Raquel Basseto, Rosalina Batista, Tereza Maria Costa e Vera Esperança Manella Cordeiro.
Estou sempre envolvida com algum grupo de excluídos. Nossa luta é para descobrirmos quem somos e passarmos a gostar de nós mesmos, diz Maria Pereira, conhecida como Lina. Atualmente ela é membro do Conselho de Saúde da Região Sul de Londrina e do Conselho Popular de Mulheres da Região Sul, além de coordenadora do Projeto Adejá (oficina de costura afro-brasileira).
Lina começou sua atuação em movimentos há 20 anos, e neste período incentivou muita gente a sair da inércia. Descobri nestes anos que não adianta lutar sozinho. Em grupo representamos uma força muito maior, diz, com conhecimento de causa. Aos 53 anos, separada e mãe de cinco filhos, ela é também um exemplo de coragem e disposição. Terminou o segundo grau há dois anos e atualmente se prepara para fazer cursinho. Quero prestar vestibular para Ciências Sociais, revela.
Uma das mulheres que foram incentivadas por Lina a entrar para o Movimento Popular de Mulheres do Paraná é Maria José Barboza, a Mazé, outra liderança que participa do livro editado pela Secretaria da Mulher. Solteira, 40 anos, Mazé conta que desde o início sua motivação foi a busca de identidade, a necessidade de ampliar espaços e dividir com outras mulheres suas angústias. A exemplo de Lina, ela sabe que o peso de caminhar junto é outro: Sozinha, a gente pode até conseguir conquistar algo, mas demora muito mais. Quando compartilhamos, fica mais prazeroso, mais fácil.
Na página dedicada a ela no livro, Mazé refere-se às mulheres que contribuíram para os movimentos sociais e políticos como mulheres petulantes, arrogantes, guerreiras... exageradamente guerreiras, para conseguir fazer o que elas fizeram. Elas mudaram a história da mulher, mudando a história do País. Para Mazé, que atualmente é membro do Conselho Comunitário Feminino, uma das melhores formas de ser feliz é encontrar parceiras de vida e poder compartilhar a busca por caminhos.
Os 500 exemplares do livro Mulheres de Londrina: lutas sociais e políticas de 1970 a 2000 será distribuído pela Secretaria Especial da Mulher.Mulheres de Londrina, lançado ontem pela prefeitura, mostra a trajetória do movimento feminino nos últimos 30 anos
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