Pesquisa sugere remodelação na PM
Telma Elorza
De Londrina
Um estudo desenvolvido por três professoras do departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual de Londrina (UEL), entregue no ano passado ao então comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar em Londrina (BPM), tenente-coronel Sílvio José Mazalotti de Araújo, mostra que os policiais militares, de todas as patentes, vivem em um estado de constante estresse. Embora a constatação não justifique a violência, isto poderia explicar por que, algumas vezes, policiais militares se envolvem em ações negativas, como a que ocorreu no último dia 7, quando um policial, de folga e à paisana, matou uma pessoa e feriu outras quatro durante uma festa no distrito de Paiquerê (zona sul de Londrina).
O trabalho, coordenado por Mari Nilza de Barros e com a participação das psicólogas Solange Maria Beggeato Mezzaroba e Romilda Cordioli Santos, envolveu quatro anos de pesquisa e mais de 180 policiais militares, de todas as patentes e idades. O relatório final, intitulado A representação das necessidade e dificuldades na atividade policial militar: contradições e ambiguidades dentro da corporação, foi entregue em mãos, no começo do ano passado, ao então comandante com a recomendação de implantação de um serviço de apoio psicológico, o mais rápido possível. O comandante nos disse que iria implantar o serviço, que já iria até preparar um ambiente para isto. Mas até agora não ficamos sabendo se foi feito ou não, diz Romilda Santos.
Segundo Mari Nilza, o estudo nasceu da necessidade de investigar como os policiais lidam com a violência a que estão submetidos diariamente. Na literatura científica e na própria imprensa, temos relatos e as vivências das vítimas, pessoas que sofreram ação violenta por parte da Polícia Militar. Mas nada sobre o cotidiano do policial, como ele vê e reage à violência em que vive, explica. As psicólogas disseram que o trabalho trouxe uma conclusão inquestionável: é preciso que a corporação, como um todo, passe por uma remodelação e modernização, principalmente no que se refere ao regimento interno. O regimento interno da Polícia Militar do Paraná, datado de 1940, é um grande gerador de tensão, muito mais que até que o risco de vida que os policiais correm todos os dias, aponta Romilda Santos.
Segundo as psicólogas, o rigoroso regimento interno baseado no do Exército aliado à cobrança da própria comunidade exige que o policial seja mais que uma pessoa, seja um super-homem. O regimento interno é um código extremamente rígido, com normas de conduta que controlam inclusive a vida pessoal do policial. Diferentemente de outros profissionais, o policial militar está sob controle 24 horas por dia, 7 dias por semana. Um médico pode relaxar em seus momentos de folga e até esquecer que é médico. Mas o policial não. Tem que ser profissional dentro casa, nas férias, fins de semana, o tempo inteiro. E isto é cobrado, não só pelo comando, mas também pela comunidade, afirma Mari Nilza.
Mari Nilza aponta para o fato que as ações negativas envolvendo policiais como as denúncias de espancamento, arbitrariedade nas reintegrações de posse, uso excessivo de força no trato com protestos, entre outras são em número muito menor que as positivas. Mesmo assim, são aquelas as lembradas.
É o caso da criança que tira 10 em todas as matérias na escola e não recebe um elogio, porque não fez mais que sua obrigação. Se vem uma nota vermelha, há toda aquela cobrança, compara Mari Nilza. Mas ele, policial, também é humano, com falhas humanas. O grande problema é que a falha dele pode causar a morte de alguém, afirma Solange Mezzaroba.
Para as psicólogas, seria preciso que as atividades psicoterapêuticas fossem rotina na profissão e que a família dos PMs também deveria receber estes cuidados.Estudo feito por psicólogas conclui que polícia precisa passar por modernização para superar tensão diária
Arquivo FolhaJosoé de CarvalhoÀ FLOR DA PELEPesquisa feita pelas psicólogas Romilda Santos, Mari Nilza de Barros e Solange Mezzaroba (ao lado) aponta que o estresse do dia-a-dia influencia nas ações violentas dos policiais militares. Acima, soldados reprimem com força manifestação de moradores da zona oeste





