Londrina

Josoé de CarvalhoMãe de SantoOju Omin, presidente da Associação Axé de Pai de Santo: jovens são grandes adeptos do candombléEm Londrina existem 28 casas de candomblé - religião afro-brasileira que cultua os orixás (forças da natureza). Proporcional à população, o número é maior que o das casas existentes no Rio de Janeiro, onde estão instaladas cerca de 150. A afirmação é do professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Sérgio Paulo Adolfo, que junto com mais duas professoras, vem desenvolvendo um projeto sobre candomblé na Cidade.
As 28 casas são responsáveis por aproximadamente 1.600 adeptos - a grande maioria pessoas brancas. ‘‘São descendentes de italianos, poloneses, japoneses que participam do candombl钒, observa. Estes números, segundo o professor, surpreendem pelo fato de Londrina não ser uma cidade que apresenta uma população negra expressiva. ‘‘Existem mais negros na igreja evangélica do que no candombl钒, afirma o professor, que é doutor em literatura africana.
Outra constatação feita pelos pesquisadores durante este trabalho: Londrina é uma cidade que participa muito do candomblé de forma subterrânea, ou seja, muitas pessoas procuram as casas como clientes, para jogar búzios ou pedir algum tipo de ajuda. Mas, oficialmente, elas não admitem sequer que conhecem a religião.
Esses clientes, diz Sérgio Adolfo, usam dos serviços do candomblé, mas não têm compromisso oficial com a religião. O professor cita exemplos: ‘‘São políticos que aparecem na época das eleições, grandes empresários que pedem ajuda.’’ Segundo ele, a procura de ajuda junto ao candomblé, de forma velada, também acontece em outras cidades, mas ‘‘Londrina chama a atenção por ser ‘metida’ a européia’’.
O professor revela que é grande o número de jovens (na faixa etária de 18 anos) que participam do candomblé. Ele acredita que isso acontece porque é uma religião que fala a língua do jovem, já que não prega o pecado e a culpa. ‘‘O candomblé é rigoroso em certos aspectos, mas, ao mesmo tempo, é bastante aberto, o que acaba despertando o interesse do jovem.’’
O preconceito ainda ronda muito a religião, que é geralmente ligada à feitiçaria. Sérgio Adolfo acredita que isso teve início ainda na época da escravidão, quando os negros trouxeram os costumes e as religiões africanas. Ele explica que, na época, cada um lutava com as armas que possuía: o senhor dos escravos com a chibata e o facão e os escravos com a feitiçaria.
‘‘Os negros tinham medo dos brancos e os brancos tinham medo das feitiçarias deles’’, observa. O professor relata que até hoje impera essa imagem - a de que candomblé é uma casa de feitiçaria. ‘‘O candomblé não é encarado como religião, mas como uma prática fetichista’’, observa. O preconceito, segundo o professor, existe também porque se trata de uma religião de periferia, introduzida por escravos.
A história do candomblé na Cidade começou ainda na década de 40. Os pais e mães de santo da época eram Maria Baiana, que tinha uma casa na vila Recreio (centro), Pai João, que trabalhava no jardim Tóquio (zona oeste), e Mãe Jacinta, na vila Fraternidade (zona leste). O candomblé começou a ser tratado como religião organizada no final da década de 60.
O professor observa que as casas de Londrina são ligadas às grandes casas baianas, como a do Gantois e a Axé de Viva Deus, ambas em Salvador. Todas as 28 casas se localizam na periferia da Cidade, sendo que existe um grande número na região dos Cinco Conjuntos (zona norte).
Intitulado ‘‘A voz dos deuses na voz dos homens’’, o projeto sobre o candomblé está sendo desenvolvido com as professoras da UEL, Elena Andrei e Dalva Haush. A pesquisa teve início em julho do ano passado e a previsão oficial é que o projeto se encerre em julho de 1998. ‘‘Mas temos trabalho para 10 anos porque o assunto é rico’’, comenta Sérgio Adolfo.
Segundo o professor, até hoje não foi feita nenhuma pesquisa formal sobre o candomblé em Londrina. O objetivo do trabalho é fazer um levantamento minucioso sobre as principais cerimônias e festas, realizar a coleta de mitos e narrativas, entre outros. O professor observa que os adeptos do candomblé têm sido receptivos, mas ressalta que existem algumas dificuldades. ‘‘A religião é iniciática, portanto a lei do segredo é fundamental. Não podemos registrar todas as cerimônias.’’
No final do mês passado, em Salvador, o professor esteve presente ao 5º Congresso Afro-Brasileiro Nacional e expôs aos participantes os resultados obtidos no trabalho até agora. A viagem foi patrocinada pela UEL e pela Universidade Norte do Paraná (Unopar). Ele diz que a sua palestra foi bem recebida, porque até hoje Londrina não tinha sido citada com relação ao candomblé. ‘‘Foi até uma surpresa para eles.’’

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