Pesquisa mostra que Londrina tem quase mil moradores de rua
Levantamento aponta que vício, vínculos fragilizados e desemprego são os principais motivos que levam a esta situação
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de maio de 2019
Levantamento aponta que vício, vínculos fragilizados e desemprego são os principais motivos que levam a esta situação
Pedro Marconi - Grupo Folha 

Pesquisa de campo foi realizada entre setembro e outubro de 2018
“Perdi minha mãe cedo, aos 16 anos. Foi muito difícil. Com 17 comecei a usar drogas e estou na rua desde então. Todos que estão nas ruas têm problemas com álcool e drogas”. A fala é de um homem que vive nas ruas há 14 anos, desde que se envolveu com o crak, e reflete bem o perfil das pessoas nesta situação em Londrina. Pesquisa divulgada nesta semana sobre esta população mostra que os principais motivos que levam alguém para a rua são a dependência química (42%), os conflitos familiares (32%) e o desemprego (25%).
“Estes três elementos preponderantes acabam dialogando com nossa estrutura social. Quando pensamos na população em situação de rua nós não temos que pensar a população em si, mas sim a sociedade que estamos inseridos. A nossa sociedade produz riqueza para todos? Ou produz para uma parte, uma minoria, enquanto que a maioria acumula pobreza e problemas de saúde? Tudo isto culmina neste processo de desemprego, conflito familiar e dependência”, avalia Fábio Lanza, doutor em ciências sociais e professor na UEL (Universidade Estadual de Londrina).
O levantamento sobre essa população também aponta que a quantidade é bem maior que a estimativa que era trabalhada pela secretaria municipal de Assistência Social. A pasta calculava cerca de 500 moradores, enquanto que o grupo responsável pela pesquisa entrevistou 930 pessoas. “Isto é uma amostra e não um censo. Então, podemos ter certeza que a população de rua na cidade é muito mais que mil pessoas”, considera. A pesquisa foi realizada pelo MP (Ministério Público), UEL, secretarias municipais de Assistência Social e Saúde, Defensoria Pública, Unopar e Movimento Nacional da População em Situação de Rua.
Sessenta estudantes, juntamente com representantes das entidades, foram até os locais com grande concentração de moradores de rua na região central e bairros, onde aplicaram questionário. Os números foram apresentados na segunda-feira (27) durante seminário. O projeto começou a ser pensado há dois anos, com a parte de campo sendo desenvolvida entre setembro e outubro de 2018. “Foi uma primeira aproximação de uma realidade bastante complexa. Ao mesmo tempo que a pesquisa revela muito, ela também demonstra que existe muito a ser conhecido. 'Salta aos olhos' o crescimento desta população”, pondera o assistente social do MP em Londrina, Marco Antônio da Rocha.
A pesquisa foi dividida em sete eixos, que foi desde o perfil das pessoas encontradas vivendo nas ruas, até questões ligadas à família, saúde, trabalho, renda e educação. Dos entrevistados, a maioria está na faixa etária dos 37 aos 50 anos, totalizando 315 pessoas, seguida de 25 a 36 anos (249) e 51 a 60 anos (118). Quatrocentos e oitenta e nove se declaram pertencentes às cores preta, negra e parda. A maioria é homem
heterossexual (84%). Apenas 12,7% são mulheres héteros. Transexuais e travestis representam 1,6%.

Outras localidades
O relatório ainda revela que a maioria é solteira (55,9%, ou 461 pessoas). Disseram ser casados 61 e viúvos 33. Apenas 29,2% nasceram em Londrina. O maior percentual está distribuído com a origem de outras cidades, entre elas São Paulo, Cambé e Cornélio Procópio. Daqueles que vieram de outra localidade para o segundo maior município do Estado, 46,7% mostraram que buscavam trabalho, condições de vida e tratamento de saúde, já 22,5% acreditavam que a cidade era melhor para o morador de rua.
Mais da metade das pessoas ouvidas têm filhos, chegando a 61,3%. Destas, 22,2% têm apenas um. Muitos dos moradores de rua de Londrina ainda mantém contato com familiares domiciliados (62,5%). Outra constatação foi de que o nível de escolaridade da maioria é baixo, com 4,4% não alfabetizados e 46,2% com o ensino fundamental incompleto. Sobre possuir uma profissão, 61,9% mencionaram que sim. A principal forma de conseguir renda é por meio da mendicância (25,8%), com 75 moradores afirmando que não se alimentam diariamente.
Demanda
No campo da saúde, 39,4% tem dependência do cigarro, 34,7% do álcool e 21,5% de drogas psicoativas. Por outro lado, o serviço público não chega em sua totalidade para este público. Moradores elencaram que a principal forma de obtenção de alimento, tomar banho e acessar outros direitos básicos não vêm por meio do município, mas da caridade. “Precisamos aprofundar as experiências para que possamos ter resultados mais efetivos dessas várias políticas, que têm que trabalhar juntas para conseguirmos avançar”, opina Rocha. “Existe uma demanda muito maior do que é ofertado. É necessário planejar e revisar a prestação do serviço público”, acrescenta Lanza.
Para o coordenador do Movimento da População em Situação de Rua em Londrina, Leonardo Aparecido Gomes, mais do que resultados, a pesquisa quali-quantitativa precisa culminar em ações concretas para os moradores, com intuito de oferecer emancipação e dignidade. “A população de rua não fica só no centro. Muitos vivem pelas favelas. Mas , infelizmente, seja onde ela estiver, a sociedade vai reclamar”, lamenta ele, que é ex-morador de rua. Quase 64% dos entrevistados assumiram conhecer alguém que já morreu na rua.
Seja por meio de ações pontuais ou grandes intervenções, especialistas e implicados na pesquisa sobre a população de rua de Londrina defendem o desenvolvimento de políticas públicas efetivas para conseguir tirar estas pessoas deste contexto. “Temos que trabalhar com políticas públicas, porque elas permanecem. A política tem que ser consolidada e independe de quem governa. Não adianta termos ações só bem intencionadas, como existem em Londrina, porque estas ações acabam”, adverte Fábio Lanza, docente e mestre em ciência sociais.
Outras áreas
Para o assistente social do MP, apesar de o tema ser relacionado à Assistência Social, ele é muito mais amplo, pois abarca outras áreas do poder público. “Nós precisamos de políticas intersetoriais, porque somente com assistência social não se enfrenta um problema que é multicausal. Precisamos de uma política de trabalho, emprego, habitação, saúde, cultura, para que possamos enfrentar todas as causas que levam as pessoas às ruas”, elenca, lembrando que a cidade tem um comitê intersetorial Pop Rua, que reúne representantes de diversos segmentos.
Secretária municipal de Assistência Social, Jacqueline Micali, destacou que não é intenção do município, neste momento, ampliar a quantidade de vagas em abrigos como forma de política pública, já que outras propostas podem ser colocadas em prática. “Formar mais acolhimento não é opção, pois temos perfis diferentes de moradores de rua. Nossa linha de trabalho é aumentar a abordagem social, para isso contratamos 25 orientadores, estamos criando uma equipe específica para crianças e adolescentes na rua, montando um Centro Dia junto com outras políticas. Tudo para que possamos fazer abordagem diferenciada, que não existe hoje. É por meio disso que vai se pensar em outros tipos de ações”, defende.
Estas atividades, segundo ela, estão sendo feitas a partir da pesquisa, que a pasta já tinha conhecimento de forma parcial dos dados. “Por um lado a sociedade anseia por respostas, o que está certo, mas não adianta tirar os moradores de rua de um lugar e colocar em outro. É necessário seguir um caminho que dê resultados.”
'Somos pessoas'
R., 30 anos, tem esposa e dois filhos. Está nas ruas há muitos anos, mas alterna períodos em casa. “Sempre vejo meus filhos e minha mulher é enfermeira, cuida de idosos”, conta. Mas as drogas são um grande problema para ele. O crack e o álcool destruíram sua vida. Viver nas ruas, diz, é ficar exposto a riscos e sofrimento, mas para os albergues ele só vai durante o inverno. “Tem mais gente usando drogas lá dentro do que fora. É horrível aquilo”, classifica.
O homem relata que ganha a vida vendendo flores que ele mesmo confecciona e sugere que a prefeitura construa um barracão onde os moradores de rua poderiam passar a noite, com camas e chuveiros. “Em São Paulo tem isso. Funciona. No Centro POP só tem três duchas. Não dá para todo mundo.” Ele também critica a ação do poder público, que força os moradores de rua a deixarem a região central da cidade recolhendo seus pertences, mas lembra que ele é a parte mais fraca de uma estrutura complexa. “Se querem que a gente deixe as ruas por que não acabam com os traficantes que vendem drogas para nós? Enquanto não acabarem com os traficantes, não vão acabar os moradores de rua porque é pelas drogas que estamos nessa condição.”
Já L., de 31 anos, tem família em Londrina, mas não mantém contato com nenhum parente. “Minha família não me dá as costas, mas eu não procuro ninguém. Não quero.” Ele já passou por uma clínica de reabilitação, onde ficou por um ano. Fora do internamento, foram mais três anos sem usar drogas. Mas uma desilusão amorosa o fez retornar para o vício. “Reconstruí toda a minha vida, mas me envolvi com uma mulher e ela pisou bastante em cima do que me doía. Quem tem problema com drogas tem um monte de carência e ela se aproveitou disso.”
Agora, L. espera conseguir outra vaga em uma clínica para tentar mais uma vez a reabilitação. “Estou usando drogas demais, estou bebendo demais, sou compulsivo, não consigo me controlar.” Enquanto não surge a vaga, ele reveza os locais onde dorme para evitar o contato com assistentes sociais, guarda municipal e polícia. “Costumo dormir lá para baixo, perto do Centro POP, que é para ninguém me encher. As pessoas reclamam que a gente bagunça tudo, que toma banho e deixa as roupas penduradas. Mas só porque a gente vive na rua tem que andar sujo? Somos pessoas.” (Colaborou Simoni Saris)


