Pesquisa mede adesão dos gays à camisinha
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de outubro de 1997
Lorena Aubrift Klenk 
Curitiba
Uma pesquisa feita em Curitiba com 86 homossexuais do sexo masculino mostra que, embora o grau de informação sobre a Aids seja elevado, 36% tiveram pelo menos uma relação sexual sem usar camisinha nos últimos dois anos. A pesquisa foi realizada pelo Grupo Dignidade - uma organização não governamental de apoio e orientação a homossexuais - e servirá de base para um projeto de prevenção da Aids financiado pelo Ministério da Saúde. O projeto será desenvolvido em Curitiba, Maringá, Ponta Grossa e Foz do Iguaçu.
As entrevistas foram realizadas em sete locais de lazer frequentados por homossexuais, como saunas, boates e praças. Três monitores contratados pelo Dignidade e um grupo de voluntários aplicaram aos entrevistados um questionário com perguntas que vão desde profissão e idade até preconceito e formas de transmissão da Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis.
A maior parte dos entrevistados está na faixa de 20 a 30 anos de idade. Entre eles aparecem estudantes, vendedores, professores, cabeleireiros, cozinheiros e profissionais de várias outras áreas. Cinco por cento afirmaram usar drogas injetáveis e 49% disseram já ter sofrido discriminação pelo fato de serem homossexuais.
Noventa e cinco por cento dos entrevistados mostraram conhecer as formas de transmissão da Aids. Quase todos sabem também como se prevenir contra a doença. O dado preocupante é que, na prática, muitos deixam de aplicar o que sabem. Os 31 entrevistados que afirmaram ter dispensado a camisinha pelo menos uma vez nos últimos dois anos deram justificativas variadas: confiança no parceiro, carência, bobeira, falta de tempo para comprar ou colocar o preservativo.
Amor não previne Aids, lembra o presidente do Grupo Dignidade, Toni Reis. Para ele, o resultado da pesquisa mostra que a prevenção precisa se concentrar não somente no repasse de informações, mas também em ações que incentivem a mudança de comportamento. Segundo Reis, a maior preocupação é com os adolescentes, em início de vida sexual e que costumam negligenciar com mais frequência as medidas de prevenção.
O projeto Arca de Noé foi iniciado pelo Dignidade em 1994 e está entrando na terceira fase. O grupo recebeu R$ 21 mil da Coordenação Nacional de DST-Aids do Ministério da Saúde e vai estender a atuação, até agora restrita a Curitiba, para Maringá, Ponta Grossa e Foz do Iguaçu. Essas cidades estão entre as seis com maior incidência de Aids no Paraná e ainda não têm trabalho de prevenção junto aos gays.
Além de um curso de capacitação para profissionais de saúde e homossexuais (realizado em agosto), o projeto prevê abordagem direta em locais frequentados por gays, para distribuição de material sobre prevenção. Ao final, será realizada nova pesquisa para avaliar os resultados.


