Susana Mali de Oliveira e  Fábio Yamashita, professores da UEL
Susana Mali de Oliveira e Fábio Yamashita, professores da UEL | Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha

A preocupação com a poluição ambiental deixada por resíduos plásticos na natureza já norteava as pesquisas na UEL (Universidade Estadual de Londrina) há duas décadas. Os primeiros estudos com materiais biodegradáveis para substituir o plástico em embalagens tiveram início em 1999, pela professora Maria Victória Eiras Grossmann, do departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos. À época, o campo era quase inexplorado e o avanço alcançado nos estudos tornou a universidade reconhecida pelos biodegradáveis preparados a partir do amido de mandioca.

Atualmente, os professores Fábio Yamashita, do departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos, e Susana Mali de Oliveira, do departamento de Bioquímica e Biotecnologia, conduzem as pesquisas em parceria entre os dois centros que representam, Ciências Agrárias e Ciências Exatas, respectivamente. Os pesquisadores e estudantes produzem em laboratório embalagens a partir do amido de milho com adição do glicerol e resíduos industriais ricos em celulose, como o bagaço da cana de açúcar ou casca de aveia, por exemplo.

A mistura desses materiais é submetida à termoformagem, isto é, passam por uma máquina que dá forma às embalagens, sob temperatura de 1300 °C e pressão de 100 bar. A escala de produção das bandejas é pré-industrial, o que deixa o produto muito próximo da viabilidade comercial.

Outras universidades do país, como Unicamp, UEM (Maringá) e USP campus Pirassunuga, já foram parceiras nas pesquisas da UEL. Hoje em dia as pesquisas dedicadas ao tema são muito mais numerosas, o que denota a preocupação da comunidade científica com o assunto da substituição do plástico, seja no Brasil ou mundialmente.

DO LABORATÓRIO À PRATELEIRA

O baixo custo que o plástico conquistou ao longo do tempo é um dos fatores que determinou sua expansão na indústria. À medida em que o acesso foi facilitado para diversos usos comerciais, o material passou a substituir vidro, papel e outros materiais que até então eram padrão. O rápido aumento na presença do plástico em produtos do dia a dia e embalagens é motivo de alerta internacional pelo volume descartado no meio ambiente. Segundo relatório das Nações Unidas para a campanha Agenda 2030, os oceanos contêm 13 mil pedaços de lixo plástico em cada quilômetro quadrado.

Para o professor Yamashita, sem uma política pública que regule o uso indiscriminado do plástico na sociedade, pouco poderá se avançar na questão. “O plástico está presente em muitos produtos que usamos e há pouca regulação sobre seu uso no Brasil. Se não houver uma demanda mais forte por responsabilidade das indústrias, com foco maior em avanço para pesquisas de materiais alternativos, não vai haver mudança significativa. Esse problema não é só brasileiro, outros países e suas indústrias precisam lidar com o tema também”, complementa.

Este é o principal empecilho para que o produto desenvolvido nas pesquisas da UEL chegue às prateleiras. Sem uma regulamentação que demande maior presença de material biodegradáveis na composição dos plásticos, a comercialização de qualquer solução obtida é inviável.

Segundo Oliveira, o preço obtido com os polímeros tradicionais é imbatível se comparado com a pequena escala dos novos materiais biodegradáveis. “Dependendo do uso pretendido, o custo de uma embalagem biodegradável pode chegar a 5 ou até 10 vezes mais que as de produtos plásticos convencionais. Sem um incentivo que permita baixar o preço, não haverá espaço para as novas soluções entrarem no mercado”, afirma.

A pesquisadora acredita que esta seria a forma de criar um ciclo virtuoso, com melhora em todos os sentidos. “Estamos deixando toda a tecnologia desenvolvida para quando o mercado estiver apto a receber esse material. Aqui temos tecnologia, temos as patentes, temos pessoal formado e o know how, o que falta é o mercado poder receber os produtos mais ecologicamente corretos. A diferença em relação aos países mais desenvolvidos, é que por lá a legislação veio antes”, explica.

Outra medida de importância, segundo os especialistas da UEL, é a mudança de cultura, com iniciativas educacionais para reduzir o uso do plástico não biodegradável e promover a conscientização do papel de cada um na natureza em seu entorno.

Recentemente, o Parlamento Europeu aprovou uma medida para banir o uso de alguns produtos plásticos - como copos e garrafas - entre os países membros, que entra em vigor em 2021. Serão proibidos plásticos descartáveis que já possuem alternativas em outros materiais e os plásticos oxi-degradáveis, os quais apenas se reduzem a micropartículas, porém não deixam de se espalhar pela natureza. Faz parte da medida também, a obrigação de fabricantes em assumir custos de limpeza e reciclagem de produtos plásticos poluentes.

DIFERENÇA DE CONCEITOS

A WWF Internacional, sigla para a organização Fundo Mundial para a Natureza, divulgou em março um relatório sobre países que mais consomem plástico e o Brasil está em 4º lugar. São mais de 11 milhões de toneladas produzidas por ano, mas a taxa de reciclagem é de 1,28% apenas. A média global entre os países que reciclam é de 9%. O volume de resíduos no Brasil fica atrás somente de outros três países mais populosos: Estados Unidos, China e Índia. A média no país corresponde a um quilo de plástico por semana para cada brasileiro.

As combinações que dão origem aos plásticos são muitas, assim como os nomes utilizados pelos fabricantes para dizerem que um produto é “100% verde”. O professor Fabio Yamashita, da UEL, ressalta a diferença de conceitos para os biodegradáveis. “O plástico biodegradável mais correto para o meio ambiente é o que vem de fonte renovável, aquele que vai ser consumido totalmente por microrganismos da natureza com o tempo”, explica. “Há plásticos chamados de biodegradáveis, mas que não vêm de fonte renovável, são feitos a partir do petróleo. Não perdem seu volume ao longo do tempo, o que não resolve o problema do descarte incorreto”, complementa.

SEM SUBSTITUTOS

Outro conceito que comumente é mencionado como seguro é o dos saquinhos de supermercado oxi-biodegradáveis. “Na verdade, a oxidação só promove um esfarelamento das sacolinhas, sem reduzir seu volume totalmente. É um polietileno e não é biodegradável. Fica invisível, porém prejudicando a natureza, pode cair em lençol freático”, descreve o professor.

Para Yamashita, por outro lado, o plástico tem funções que ainda não têm substitutos. Seja por seu baixo peso, resistência e outras características, e por isso não se pode condenar seu uso totalmente. O problema está no uso indiscriminado pela sociedade quando já existem alternativas, como no caso das sacolinhas, e que são usadas em grande volume. A falta de políticas para a reciclagem é outro entrave à redução do plástico que polui.

INDÚSTRIAS

A Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), representante dos transformadores e recicladores de plástico, acredita que lei proibindo o uso de produtos plásticos, como canudos e outros produtos, não é a melhor solução para acabar com o plástico no meio ambiente, e sim que a gestão de resíduos sólidos no Brasil fosse melhorada. Por meio de nota enviada pela assessoria, diz que falta debate sobre consumo consciente e a responsabilização de todos os envolvidos: poder público, indústria e sociedade.

Ainda de acordo com a nota, há iniciativas para a de produção de plásticos 100% biodegradáveis, mas que não podem ser colocadas em prática por falta de incentivo do poder público e oferta suficiente de componente biodegradável para uso em larga escala.

RECURSOS

As pesquisas na UEL são mantidas em sua maior parte por recursos de órgãos de fomento à pesquisa, especialmente o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), e também Fundação Araucária (estadual) e Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Foram estes recursos que viabilizaram a compra dos primeiros equipamentos, como a máquina de extrusão, que faz o material a partir do amido ser expelido em forma de filamentos, e foi decisiva para o avanço das pesquisas. Desses órgãos vêm também as bolsas de estudo para pesquisadores e estudantes, imprescindível para a manutenção das atividades.

Mas os recursos financeiros para as atividades das pesquisas vêm sendo limitados nos últimos anos. Outra preocupação é falta de funcionários na estrutura da universidade, com cargos que aguardam convocação de aprovados em concurso público. O desfalque leva ao acúmulo de funções pelos professores que precisam priorizar a formação de alunos e podem ter que deixar as pesquisas em segundo plano.

Os recentes anúncios de contingenciamento no orçamento e recolhimento de bolsas na pós graduação feitos pelo Ministério da Educação comprometeram 28 bolsas da universidade, segundo informações da Agência UEL de notícias. No programa de doutorado em Ciência dos Alimentos é provável que os próximos ingressantes não tenham bolsas, já que o número já não eram suficiente e recentemente algumas foram recolhidas pois estavam com alunos que recebiam por outros trabalhos desempenhados, explica Yamashita. "O corte de bolsas causa também redução nas vagas e afeta a qualidade das pesquisas, pois não conseguimos exigir um trabalho árduo do aluno que não recebe bolsa e ainda precisa sobreviver", acrescenta.

Para Susana Mali de Oliveira, do departamento de Bioquímica e Biotecnologia, apesar das limitações impostas em especial nos últimos quatro anos, a produtividade do projeto é alta e de qualidade internacional. “Os números dos últimos cinco anos mostram como já formamos doutores (11), mestres (12) e foram mais de três mil citações dos nossos artigos em periódicos nacionais ou internacionais.” O trabalho conjunto dos pesquisadores já rendeu também 5 patentes depositadas no Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) e citações do trabalho da UEL em periódicos importantes para a área.

O processo de validação de patentes pode levar até dez anos para que seja completado, como explica a professora. “A checagem do ineditismo do produto é o que demora, pois é verificado no mundo todo se há uma ideia semelhante já certificada. Mas há a possibilidade de solicitar o uso mesmo durante a avaliação com algum reconhecimento para quem o propôs”. Como o tempo de verificação pelo Inpi é longo, a UEL ainda não pode usufruir de produto final patenteado e receber direitos autorais sobre seu uso.

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