Apenas dois surtos de toxoplasmose - no Panamá e Canadá - precederam a maior irrupção dessa doença no mundo, ocorrida entre 2001/2002 na cidade de Santa Isabel do Ivaí (92 km a oeste de Paranavaí), atraindo a atenção de pesquisadores do país. O surto paranaense registrou 425 casos da infecção, como apontam dados da Diretoria de Vigilância em Saúde e Pesquisa da Secretaria de Saúde.
A toxoplasmoese é uma infecção que, além de aborto, causa má formação congênita (leia mais nesta página). Alguns hábitos e fatores ambientais, alimentares, culturais e sociais deixam as pessoas mais vulneráveis a ela. No Brasil, ao contrário de países como a França, não existem estudos que elucidam plenamente a situação da infecção entre gestantes. Profissionais de saúde ainda estão cheios de dúvidas quando o assunto é diagnóstico e tratamento.
Mas uma pesquisa inédita realizada por uma equipe da Universidade Estadual de Londrina (UEL) deve dissipar um pouco da neblina ao redor da doença. No futuro, o trabalho londrinense deve conduzir a uma vacina contra a infecção em humanos. Ainda não se sabe quando a droga estará disponível, mas testes preliminares com suínos e gatos já comprovaram a eficiência de vacinas para os animais.
No surto de Santa Isabel do Ivaí, o gato animal cuja maioria das pessoas atribui a transmissão da toxoplasmose realmente pode ter sido o culpado do maior surto mundial da infecção. Porém, grande parte das pessoas desconhece que pode adquirir a doença ao comer carnes cruas, alimentos mal lavados, além do contato com animais contaminados.
O professor do curso de Veterinária da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unioeste), João Luis Garcia, integra o grupo de pesquisadores da UEL, onde faz pós-doutorado. Ele desenvolve dois projetos. Entre os quais, o que pretende produzir uma vacina para diminuir a formação de cistos teciduais, o que baixaria a contaminação através do consumo de carne crua.
''Nesse projeto trabalhamos com o suíno, que é uma das principais vias de transmissão'', afirma Garcia. Ele acrescenta que a pesquisa foi publicada este ano no Veterinary Parasitology, sendo que o grupo de animais vacinados produziu menos cistos.
Na outra ponta do projeto, o pesquisador trabalha com uma vacina para diminuir a eliminação de cistos pelos gatos domésticos, derrubando também a contaminação ambiental. A pesquisa ainda não foi publicada, mas já apresenta alguns resultados positivos.
O professor João Luiz Garcia, da Unioeste, investiga a toxoplasmose desde 1993. A partir de 1999, com a tese de doutorado, iniciou a pesquisa para o desenvolvimento de vacinas. ''A Veterinária sempre trabalha com o objetivo do bem-estar animal, tendo a saúde humana como meta. No futuro pretendemos chegar a uma vacina contra a toxoplasmose no homem'', explica o pesquisador.
Coordenado pelo professor de Zoonoses, Higiene dos Alimentos e Saúde Pública, Italmar Teodoro Navarro, o projeto é de autoria da professora do Departamento de Ciências Patológicas, Regina Mitsuka Bregaró. O trabalho dos pesquisadores londrinenses despertou o interesse do Ministério da Saúde, que pretende incorporar o protocolo de diagnóstico e tratamento da toxoplasmose congênita propostos pela pesquisa.
Com investimentos do governo estadual de R$ 153 mil, em 2005, a pesquisa tem apoio ainda da Secretaria Municipal de Saúde e da 17 Regional de Saúde. O trabalho envolve 16 docentes, quatro deles são bolsistas de iniciação científica, além de estagiários de diversas, áreas, como Veterinária, Medicina, Biologia e até Matemática, responsável pelo levantamento estatístico.

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