É possível definir de forma objetiva o que é um herói e um vilão? Para responder essa pergunta, um grupo de estudantes do curso de Direito da Faculdade UniLondrina se debruçou sobre os livros e foi para a rua fazer uma pesquisa com a população. Durante um ano e meio, eles fizeram uma extensa pesquisa bibliográfica sobre o tema e aplicaram mil questionários em pessoas de diversas idades, classes sociais e profissões. E a conclusão é que o conceito "depende da época, da cultura e dos valores da sociedade". "Enfim, não tem um critério para definir herói e vilão. Depende do ponto de vista", explica Fabrício Almeida Carraro, coordenador da pesquisa e professor de História e Filosofia do Direito da UniLondrina.
Se não há um critério objetivo para defini-los, existem algumas características peculiares de cada um. O herói é visto como uma pessoa que se sacrifica por algo maior. No questionário aplicado, 36,9% responderam que o herói é uma pessoa boa ou bondosa e 11,2% ressaltaram a coragem como caraterística principal.
Para 19,9% dos entrevistados os seus heróis de infância estavam na família (mãe, pai, avó) e essa referência continua ao longo da vida para 24,4% das pessoas. Para 29,5%, um vilão é a pessoa que pratica maldades. Os políticos são apontados como vilões por 76% dos entrevistados. "Percebemos que o herói tem um certo padrão. É aquela pessoa que se sacrifica pelos outros. O vilão é muito mais complicado. Tem algumas condutas que são mais claras como quem pratica estupro ou homicídio", diz Carraro.
Segundo o coordenador, a intenção é desenvolver projetos educacionais com crianças carentes ou em situação de vulnerabilidade. "Com base nestes dados, queremos colocar o mito do herói em uma perspectiva educacional e dar referências para os jovens e com isso trabalhar a redução da criminalidade."
A pesquisa contou com a colaboração da professora Francisca Vergínio Soares e mostra que o caráter do herói muda conforme a época. A mitologia grega retrata os semideuses com falhas de caráter. Os super-heróis das histórias em quadrinhos também podem ser personagens mais próximos das pessoas comuns. "A figura do anti-herói é mais presente do que a do próprio herói. Os valores da sociedade estão mudando muito rápido e essa figura está se aproximando mais do homem comum", aponta.
A pesquisa também procurou analisar o conceito pela ótica da lei. Olhando para a história é fácil encontrar personagens, hoje tido como heróis, que cometeram crimes. Um exemplo nacional, segundo Carraro, é Tiradentes. Personagem símbolo da Inconfidência Mineira, Joaquim José da Silva Xavier foi condenado em um processo criminal.
É a lei que define os crimes e os criminosos (vilões), mas ela é volátil, conforme da história. O coordenador exemplifica que o adultério era considerado crime até 2005 e que atualmente se discute a descriminalização da maconha. Em algumas sociedades antigas não havia o direito de propriedade, por tanto não havia o crime de furto. "Queríamos mostrar que não funciona só criminalizar", ressalta o professor.
O questionário aplicado à população revela que 99% das pessoas com mais de 18 anos e que responderam à pesquisa já cometeram algum deslize, o que os caracterizam, aos olhos da lei, como vilões (criminosos). Comprar um CD ou DVD pirata é uma prática comum entre os entrevistados, uma vez que 84% responderam que já fizeram isso. A ação é considerada crime de receptação.
Quando a pergunta foi se já deixou de devolver o troco recebido a mais (crime de apropriação indébita), a resposta foi afirmativa para 70% dos entrevistados. Setenta por cento responderam que já colocaram informação falsa em documentos (falsidade ideológica), 71% disseram que fizeram "bico" enquanto recebiam o seguro desemprego (estelionato), 74% já ofenderam alguém (injúria), 78% já fizeram uso de droga, 82% pagaram contas com cheque sem fundos (estelionato) e 64% dirigiram embriagados ou sob efeito de drogas.
"Já esperávamos este resultado, mas queríamos provar com dados. A sociedade é quem aponta o vilão e o julga. Só que todos nós temos os nossos deslizes, que do ponto de vista da lei são considerados crime. Queríamos saber este conceito, porque nem sempre matar ou furtar foi crime. Os romanos matavam crianças que eram consideradas fracas para a guerra." A conclusão dos pesquisadores é que este percentual alto fomenta a reflexão sobre a definição de crime e, por consequência, de vilão.

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