Pesquisa avalia cidadania em bairro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de abril de 1998
Marccio W. Varella 
Marcos NegriniAs 1.460
entrevistas
feitas no
Bairro Santa
Felicidade
revelam que
mais de
700 moradores
não têm
documentos
como
carteiras
de identidade,
de trabalho
e de saúde,
título de
eleitor e
certidão de
nascimentoPesquisa realizada com 1.460 moradores do bairro Santa Felicidade, distante cinco quilômetros do centro de Maringá, mostrou que a metade deles não possui os documentos necessários para o exercício da cidadania: carteiras de identidade, de trabalho e de saúde, título de eleitor e certidão de nascimento. Eles não são cidadãos, disse o vereador Basílio Baccarin (PSDB), autor da pesquisa realizada no segundo semestre do ano passado.
Há um ano Baccarin criou o Projeto Cidadania e Participação para ajudar as famílias do bairro. Com auxílio da Prefeitura de Maringá, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), de colégios, associações de pais e mestres e das Pastorais da Criança e da Saúde, o projeto fez um levantamento completo da situação de cada família e descobriu que todas elas são carentes de saúde, alimentação, emprego e documentos.
As casas do bairro são de alvenaria, mas a maioria não tem muros e nem calçadas. A violência é comum no lugar, principalmente à noite, quando poucos têm coragem de sair de casa. O sargento Edgar Rosa, do posto do Corpo de Bombeiros, a 500 metros do Santa Felicidade, diz que todas as noites ouve o pipocar dos tiros.
A pesquisa descobriu 188 adultos analfabetos. Conseguimos vagas para eles na escola, que fica ao lado, mas apenas sete se matricularam. Fomos às casas deles para matriculá-los e conseguimos que 50 começassem a frequentar a escola, afirmou o vereador. O projeto fez exames parasitológicos nas crianças. Os remédios foram enviados ao posto de saúde, que também fica ao lado do bairro. Até agora ninguém se interessou em buscar os remédios, disse Baccarin.
A diarista desempregada Vera Lúcia Pimentel Fermino, 36 anos, casada, cinco filhos, mora no bairro há 20 anos. Ela nunca teve uma carteira de identidade, embora possua o título de eleitor e a carteira de trabalho. Não sei explicar por que nunca tirei identidade. Sei que isso me atrapalha um pouco a vida. Já perdi bons empregos por falta da carteira e não consigo fazer crediário. Mas de um certo modo isso é bom porque não pago juros e nem devo aos outros, justificou ela. Seu marido, o pedreiro desempregado José Fermino, 40 anos, perdeu a carteira de identidade há 10 anos e nunca mais se preocupou em tirar uma segunda via: É muito caro.
A mesma desculpa tem o desempregado Claudemir Oliveira, 22 anos. Seu único documento é a certidão de nascimento. Ele não estuda (parou na 3ª série do 1º grau) e nem trabalha, e também não se alistou no serviço militar. Nunca votei e nem tenho carteiras de identidade e de trabalho. Por quê? Não sei. Acho que é preguiça.
Em Maringá, para ter uma carteira de identidade, basta levar o registro de nascimento original e duas fotos 5x7 à Polícia Civil, no bairro Mandacaru, e pagar R$ 8,00. A segunda via custa R$ 11,00. Para ter o título de eleitor, basta levar uma cópia da carteira de identidade e uma conta de luz ou telefone ao Fórum, no centro da cidade, e aguardar apenas cinco minutos. O serviço é gratuito.


