Todo pescador sabe que ter uma vara, linha e anzol de altíssima qualidade de nada vale se não for utilizada uma boa isca. No entanto, se eles concordam que a isca tem que ser adequada, as opiniões divergem sobre qual é a ideal para cada tipo peixe. Em visita a alguns locais de pesca da Represa Capivara, no Norte do Paraná, a reportagem da FOLHA encontrou quem utilize como iscas desde as tradicionais minhocas até mortadela.
O aposentado Laurindo Cantero, 53 anos, e a dona-de-casa Aparecida Cleonice Cantero, 51, ou Nice, como prefere ser chamada, moram em uma chácara na beira da represa de Primeiro de Maio. Eles contam que já pegaram um pacu de 17 quilos e utilizam um tipo de isca não muito difundido: frutas. Em vez de minhocas, lambaris e camarões, eles preferem acerolas, pitangas, goiabas e jabuticabas, que atraem principalmente pacus e piaus. ''Esses peixes gostam muito de fruta, principalmente da acerola'', garante o pescador.
O casal considera que a acerola faz tanto sucesso com os peixes por causa do cheiro, da cor forte e também por flutuar, não se escondendo no barro do fundo da represa, como acontece com outras iscas. Para garantir pesca o ano todo, eles congelam acerolas.
Casados há 32 anos, além de companheiros na lida com os bichos e com a terra, também são companheiros de pescaria. Nice faz questão de levantar às 4 horas para acompanhar o maridão até a beira da água. E a união do casal tem dado bons resultados. Orgulhosos, eles mostram dezenas de fotografias que comprovam os inúmeros peixes, todos com mais de três quilos, que pegaram nos últimos tempos.
Sem machismo, Laurindo admite que a mulher realmente entende de pesca e consegue fisgar grandes peixes; o único problema é que falta força para trazer o bicho até a margem depois de fisgado. ''Esses peixes grandes são muito fortes, dá trabalho demais para tirar um bicho desses da represa, então fazemos um trabalho em equipe, ela fisga, eu 'trabalho o peixe' até a margem e ela tira da água com o passaguá (uma rede com cabo). Eu brinco, digo que a Nice é a mulher do passaguá'', diverte-se o aposentado.
Para Nice, o principal segredo de tanto sucesso não é a união e nem as iscas, mas o carinho pela natureza. ''Meu marido é um amante e conservador da natureza. Ele nunca utilizou nenhum tipo de material de pesca predatória, faz de tudo para manter a represa limpa e trata os peixes o ano todo'', orgulha-se.
''Todo mundo na cidade fica admirado com os peixes que eu pego, mas eu trato deles o tempo todo, inclusive na época de piracema, quando não pesco. Gasto 43 sacos de milho em palha por mês'', relata Laurindo.
Para finalizar, ele confessou que apesar de pescador experiente, ainda não descobriu um mistério dos peixes. Durante cinco meses - de julho até outubro - eles praticamente desaparecem. Nem as espigas de milho que o pescador deixa na água os peixes comem. ''Queria entender porque isso acontece''
O biólogo Mauro Caetano Filho, coordenador da estação de psicultura da Universidade estadual de Londrina (UEL), é quem responde. ''Nestes períodos de água mais fria, o metabolismo dos peixes baixa, eles se alimentam menos e migram para regiões onde a água tenha uma temperatura mais elevada''.

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