A proibição da pesca profissional no Rio Tibagi e nas vazantes da represa Capivara, estabelecida por uma portaria do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) em 2004, vem acabando aos poucos com a única fonte de renda dos pescadores profissionais de Jataizinho (Norte). Liberados para exercerem a profissão apenas no leito da represa formada pelos rios Tibagi e das Cinzas, eles enfrentam escassez de locais para pesca, dificuldades de acesso aos pontos e a concorrência – muitas vezes desleal – dos pescadores amadores que freqüentam as águas da região.
  A denúncia é da diretoria da Colônia de Pescadores Z-03 de Jataizinho, que abrange 400 pescadores de 32 municípios. Segundo o presidente da entidade, Julio Francisco Daniel, aproximadamente 50 famílias que dependem da pesca no município estão passando por dificuldades financeiras.
  O vice-presidente da colônia, Olair de Souza, conta que até 1990 dava para sobreviver com a renda dos peixes. O loteamento das áreas da região em chácaras e a proibição da pesca acabaram inviabilizando a profissão. ‘‘Estão matando os pescadores aos poucos’’, acusa, acrescentando que a categoria também é vítima de preconceito. ‘‘É uma profissão constituída, mas somos encarados como pessoas miseráveis e vagabundas’’, enfatiza.
  Além das dificuldades impostas pela falta de locais para pescar, os pescadores profissionais convivem com a animosidade dos donos de chácaras de lazer da região. Segundo Souza, os proprietários colocam cercas nas propriedades e impedem o acesso aos pontos onde a pesca ainda é permitida.
  ‘‘Teve um deles que tirou até as ‘tralhas’ de um pescador’’, afirmou, acrescentando que alguns chacareiros utilizam equipamentos potentes e muitas vezes adotam práticas proibidas, como por exemplo o uso de galão ou o aprisionamento de peixes pequenos. Outra denúncia dos profissionais é que, com a abertura de acessos às propriedades, os donos de chácaras desmatam áreas de matas ciliares ao redor da represa, cuja preservação é obrigatória.
  Em uma das propriedades às margens da Capivara, uma placa deixa explícita a intolerância do chacareiro com relação aos pescadores ao anunciar: ‘‘Área particular – pesca somente para proprietários e convidados’’. ‘‘Eles são donos da terra, mas o rio não tem dono’’, lembrou Antônio Sereia, pescador há 15 anos em Jataizinho e que se mudou para Londrina por causa de um tratamento de saúde da esposa. Sem outras opções de trabalho, ele passa a semana na beira do rio tentando garantir o sustento da família. Os peixes são vendidos para os próprios moradores do Jardim São Jorge (Zona Norte), onde mora.
  Na única estrada municipal que leva às margens da represa, três porteiras instaladas por proprietários de terras também incomodam os pescadores. Benedito Aparecido da Silva, na profissão há 23 anos, percorre diariamente, de bicicleta, os 13 quilômetros do acesso de terra. ‘‘A estrada está em péssimas condições e ainda por cima temos que abrir as porteiras. A cada dia que passa, está mais difícil trabalhar. Em dez anos acho que não vai mais ter pescador profissional. Continuo vindo porque sou teimoso’’, afirma.
  O engenheiro de pesca Luiz Eduardo de Sá Barreto, da Emater de Cambé, informou que acampar na beira do lago é uma prática comum entre os pescadores, que acabaram ficando impossibilitados de chegar até as margens por causa dos loteamentos. ‘‘Permitir o acesso é uma questão de bom senso’’, afirmou.
  Lula, como é conhecido o engenheiro, considera que os maiores responsáveis pela pesca predatória são os pescadores eventuais que saem da cidade sem frequência definida para praticar a pescaria.
  Ele esclareceu também que os primeiros 100 metros das margens dos rios são áreas de preservação e, no caso da Represa Capivara, responsabilidade da empresa Duke Energy.

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