Milton DóriaVerdade de pescadorJosé de Freitas, que pesca desde que o lago é lago, garante: há 90 dias poluição está maiorPescadores que frequentam o Lago Igapó, próximo ao Iate Clube, estão reclamando que a poluição no local está se tornando cada vez mais frequente, sobretudo com produtos derivados de óleo diesel. Na sexta-feira da semana passada, por exemplo, uma ‘‘descarga’’ de óleo saiu por um dos canais e deixou quase a metade do lago coberto com uma camada fina do produto. ‘‘A água ficou um espelho de tanto óleo’’, classifica José de Freitas, que pesca no local, segundo ele, ‘‘desde que o lago foi feito’’.
Segundo o pescador, o óleo aumenta em dias de chuva, como naquela sexta-feira. Freitas diz que ligou diversas vezes para a Autarquia do Meio Ambiente (AMA), pedindo providências, mas até agora nada foi feito. ‘‘É preciso saber quem é que está jogando óleo no lago. Do jeito que está não pode ficar.’’
José de Freitas comenta que começou a notar a poluição há 90 dias, mas que de dois meses para cá ela tem se tornado mais intensa. Normalmente ele e os colegas pescam sob a ponte da avenida Higienópolis (área central), em frente ao Iate, mas também têm notado a poluição em outras partes do lago. ‘‘Atrás do clube tem um canal onde o pessoal conserta lancha, dentro do ancoradouro, soltando muito óleo e graxa na água. Tem outro canal, perto dos bombeiros, que também está muito sujo.’’
Aldemir Leme de Souza, um dos responsáveis pelo setor náutico do Iate, diz que tem orientado constantemente os frequentadores para que não abasteçam ou façam consertos dentro da água. ‘‘Às vezes os mecânicos testam os barcos com a tampa do motor aberto e, por isso, pode cair um pouco de óleo ou gasolina. Mas não é sempre’’, garante.
A poluição, segundo os pescadores, também está afetando a saúde dos peixes. ‘‘Esses peixes que estão aqui não estão normais, a carne está muito mole. Parece que não estão sadios’’, aponta Masami Suzuzi, que além de pescador é cozinheiro e está acostumado a lidar com o produto. ‘‘O lambari, uma hora depois de pescado, dentro do samburá, já está morto, o que não é comum’’, completa Freitas.
Outro pescador, Roberto Queitz, alerta para o perigo que as crianças que nadam no lago podem estar correndo. Faz quinze anos que ele pesca no local mas diz que a poluição tem se intensificado nos últimos tempos. ‘‘Se tivesse um orelhão por aqui a gente ligava, para avisar da sujeira, do óleo. Mas também o pessoal vem, dá uma multa e aí continua tudo a mesma coisa’’, diz, pouco depois de fisgar com o próprio anzol parte do chassis de uma mobilette.
A poluição também está assustando quem gosta de praticar esportes náuticos. Segundo o professor de remo e canoagem do Iate Clube, Gelson Moreira, muita gente tem deixado de lado o esporte porque não suporta entrar em uma água com tanta sujeira. ‘‘Frequentemente aparecem manchas de óleo na água.’’
O professor também questiona o trabalho de despoluição feito no lago em 1996, na gestão do ex-prefeito Luiz Eduardo Cheida. Na época, houve até rebaixamento do nível das águas do lago para desassoreamento e identificação de focos poluidores. ‘‘Falaram em poluição zero, mas não aconteceu nada disso.’’ Para Gelson Moreira, tempo e dinheiro gastos no ano passado estão submersos. Hélio Dutra, superintendente da AMA na gestão passada e responsável pelo trabalho de despoluição do lago, não foi encontrado para dar entrevista.

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