Apesar de pertencerem ao mundo dos contos de fadas, as desventuras de João e Maria - criações dos Irmãos Grimm - escondem a crueldade atrás de uma história com final feliz. Impressionado com a narração, o leitor do livro infantil não consegue ver que, além do narigão da bruxa e das artimanhas de uma madrasta malvada, existe um enredo terrível de fome, miséria, abandono, trabalho infantil e desrespeito aos direitos das crianças semelhante à vida de muitos brasileirinhos.
No momento em que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 15 anos, dramas diários continuam acontecendo nas páginas do livro da vida, e em vez da floresta assustadora onde a madrasta deixa os irmãos à própria sorte, há a selva de muitos lares cenário entre quatro paredes para tragédias diárias.
Emprestando a fantasia do conto infantil para narrar a realidade de milhares de crianças e adolescentes paranaenses nesta série sobre o estatuto e a violência contra a infância, podemos dizer que uma bruxa chamada ''impunidade'' é responsável por uma tortura velada sobre quem não tem a astúcia dos irmãos da ficção, que conseguiram enganar a feiticeira.
Em Londrina, dos 426 casos de abuso sexual registrados até hoje pelo Projeto Sentinela, único a atender vítimas desse agressão, somente três ocorrências foram parar na Justiça. O trabalho estratégico do governo federal começou a ser realizado na cidade em 2002. As estatísticas apontam que, para quatro denúncias, outras cinco vítimas ainda estão silenciosas nas mãos dos agressores.
Podemos chamar de João a criança de uma história londrinense real de violência, que passou pelo Sentinela. O garoto franzino, de apenas dois anos, não foi abandonado por uma madrasta malvada na floresta, mas pela mãe negligente e usuária de drogas, que o deixou sozinho em casa para se divertir com amigos. Naquela mesma noite, um grupo de rapazes entrou na residência da mulher e abusou sexualmente do menino. Depois da violência, a guarda da criança, que mal sabia falar, passou para o pai, que acompanhou a internação hospitalar do filho para se recuperar da agressão. A mãe foi responsabilizada judicialmente.
Maria é personagem de outra história de maus-tratos. O nome fictício protege a identidade da vítima do enredo brutal. Na fábula, a irmã de João se tornou escrava da bruxa, obrigada a trabalhos forçados e à tortura de ver o irmão enjaulado, ameaçado de ir para o caldeirão. A Maria atendida pelo Sentinela foi vítima de todos os tipos de violência. Aos oito anos de idade, conheceu o abuso sexual, agressões físicas como queimaduras, cabelos arrancados e privação de alimentos.
Se no conto os pequenos heróis pagam a crueldade da bruxa com a mesma moeda, os dramas reais das vítimas de violência infantil somente acabam com a denúncia. ''Essa menina de oito anos atendida pelo Sentinela só não morreu porque os vizinhos denunciaram. O agressor tentou impedir a entrada dos conselheiros do Conselho Tutelar, que tiveram a ajuda policial. O acusado de agredir a criança foi preso por crime de tortura e a mulher dele também foi indiciada'', lembra a coordenadora do Sentinela em Londrina, Telcia Lamônica de Azevedo Oliveira.
Se nas fábulas a moral da história vai para o lado do bem, na vida real isso não acontece. Isso pode constatado nas estatísticas de abuso sexual registradas nesta década e meia do ECA. Em 2002, foram 124 casos em Londrina atendidos pelo Sentinela. Trinta e quatro meninos e 90 meninas fecham essa conta. No ano de 2003 foram 167 casos, sendo 51 meninos e 116 meninas. Em 2004 não foi diferente. Até o dia 9 de dezembro, o programa recebeu 135 vítimas, com a predominância de 93 meninas para 42 meninos.
A casa da bruxa no conto infantil, feita de chocolate, biscoitos e doces guardava um segredo: as atrocidades da mulher perversa que devorava criancinhas. Perversidade que continua fora da ficção praticada, geralmente, pelos que deviam proteger. Irmãos, pais, tios e primos formam o exército de malfeitores. Desde que iniciou o trabalho em Londrina, o Sentinela só registrou dois casos em que as mães violavam sexualmente os filhos. ''Noventa por cento dos agressores são pessoas que estão perto das crianças. O crime é praticado principalmente contra vítimas de quatro a 10 anos de idade'', explica Telcia.

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