A jornalista estava na redação, no final de uma tarde de quinta-feira, fechando suas matérias, quando o boy lhe trouxe uma carta. Ela analisou o envelope: branco, com detalhes azuis. Sem nome de remetente. Abriu. Dentro, havia apenas um bilhete, com letras impressas em fonte Arial Bold: ''Estou na saída pra São Paulo. Até mais''. Ela deu um sorriso amarelo e jogou a carta fora. Brincadeira besta, pensou.
Exatamente uma semana depois, mais ou menos no mesmo horário, o boy passou ao lado da jornalista e disse que havia chegado outra carta. O envelope era igualzinho. Ela abriu, e a mensagem em Arial Bold parecia mais agressiva: ''Já cheguei à Dez de Dezembro, estou perto da Rodoviária. Você não escapa''. Dessa vez, a moça ficou mais preocupada. Pensou em consultar a recepcionista para saber quem andava mandando aquelas cartas, mas desistiu ao perceber que o envelope viera dos Correios, carimbo Agência Centro. Podia ser qualquer um. Um tarado?
Na noite de quarta para quinta-feira da semana seguinte, a jornalista nem pregou o olho. Sabia o que a esperava à tarde uma nova mensagem: ''Estou na Leste-Oeste, vou subir a São Paulo. Desde que te vi, não penso em outra coisa''. Lembrou de onde o tarado podia conhecê-la. Por que ela teve a maldita idéia de ir àquele Baile do Havaí? Seu rosto saiu em todas as colunas sociais.
A jornalista passou a viver em paranóia constante. Deixou de ir a pé para o serviço, mesmo morando perto. Não saía mais. Na quinta-feira seguinte, não podia dar outra. Vinha o bilhetinho: ''Estou contornando a Catedral. Você não pode evitar''. Nesta noite, ela esperou o último dos diagramadores ir embora para pedir: ''Você me acompanha até em casa? Moro a três quarteirões daqui''. O rapaz não entendeu nada, mas concordou.
Na quinta seguinte, a jornalista já esperava uma grande tragédia quando, no final da tarde, ouviu um barulho insuportável vindo da janela. Desceu ao térreo e pôde ver o que era: um carro de telemensagem, som terrivelmente alto, com uma mensagem aos berros ''Feliz Aniversário!'' Ora essa. Pois não é que, em meio a tanta tensão, a jornalista tinha se esquecido que fazia aniversário naquele dia?
Ela ainda pensava nisso quando viu, no alto, um jatinho em vôo baixo lançar milhares de pétalas de rosas. Olhou no meio da multidão que encarava sua cara de tacho e reconheceu o namorado. Uma demonstração homérica de amor. Um vexame megalomaníaco. Três repórteres de tevê apareceram. Os jornais impressos, concorrentes, mandaram fotógrafos. Até aquele careca da televisão apareceu.
O namorado abraçou a moça, e, sorridente, disse: ''Então, o que você achou?'' A jornalista respondeu, com lágrimas nos olhos: ''Eu preferia o tarado''. O amado não entendeu nada.

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