São Carlos - A ideia de que as raças de cães são um elemento importante na definição da "personalidade" dos bichos de estimação acaba de levar um baque considerável, graças à genômica. O maior estudo já feito tentando correlacionar o temperamento dos cachorros com o seu DNA revelou que apenas 9% da variação comportamental entre os cães pode ser atribuída à raça à qual eles pertencem. Ou seja, os bichos são, em primeiro lugar, indivíduos tão únicos quanto seus donos.

.
. | Foto: iStock

Isso vale inclusive para características que costumam estigmatizar certas raças, como uma suposta tendência à agressividade, afirmam as pesquisadoras americanas que coordenaram o estudo. Publicado na edição da revista especializada Science, o trabalho se baseou em dados sobre comportamento obtidos com os donos de 18 mil cachorros (a maioria dos EUA) e na análise do DNA de um subconjunto desse grupo, com pouco mais de 2.000 animais (tanto "de raça" quanto mestiços e vira-latas).

"Eu nunca tinha tido um cachorro na vida quando entrei na pós-graduação e comecei a estudar a genética por trás de comportamentos compulsivos em cães, com o objetivo de usá-los como modelos para entender problemas equivalentes em seres humanos", contou Elinor Karlsson, coordenadora do trabalho e pesquisadora da Universidade de Massachusetts, em entrevista coletiva online.

"O problema é que a minha pesquisa começou a emperrar, em parte porque a nossa amostra tinha poucos cães. E aí eu percebi uma coisa engraçada. Toda vez que alguém me perguntava com o que eu trabalhava e eu começava a explicar, a pessoa imediatamente me mostrava uma foto do cachorro dela e começava a me contar tudo sobre o comportamento do animal. Foi aí que ficou óbvio: era desses dados que nós precisávamos."

ARCA DE DARWIN

O estalo levou à criação do site Darwin's Ark, ou "Arca de Darwin", no qual a equipe começou a disponibilizar questionários detalhados sobre o comportamento canino (ainda é possível participar online, e atualmente quem preenche as perguntas já recebe uma análise preliminar sobre seu animal).

As perguntas subdividem o comportamento dos bichos em oito eixos principais (veja infográfico), como sociabilidade, obediência, busca por contato com o dono etc. Foi por meio do Darwin's Ark que a equipe também recrutou os bichos que foram incluídos na avaliação genômica, a qual empregou basicamente os mesmos métodos usados na busca pela associação entre genes e determinadas doenças em seres humanos.

O trabalho revelou uma associação relativamente pequena entre características comportamentais e raças. Para a especialista da equipe em evolução canina, Kathryn Lord, a explicação é simples. O que acontece é que as raças claramente definidas que conhecemos hoje, seguindo padrões rígidos de aparência física e (supostamente) temperamento, são uma invenção recente, derivando de meados do século 19 para cá.

Antes disso, o processo de seleção das características dos bichos foi muito mais passivo e indireto. "Primeiro, alguns lobos que se tornaram ancestrais dos cães precisaram perder o medo do contato com seres humanos e se tornaram mais dóceis para viver perto das pessoas", conta ela. "Com o passar dos milênios, alguns animais eram selecionados não por cruzamentos constantes, mas talvez sendo mais bem tratados, recebendo mais comida etc."

Em resumo, diz Karlsson, os processos mais importantes para a evolução dos cães ainda são, de longe, os mais antigos e simples. Selecionar comportamentos de forma específica é algo que leva tempo, e as gerações que passaram desde a origem das raças modernas não teriam sido suficientes para modificar muito isso.

OBEDIÊNCIA

A conclusão, no entanto, não descarta totalmente a associação entre as raças e certas variáveis de comportamento. Um elemento no qual a raça parece ter maior importância é a obediência, em especial quando o bicho está sendo treinado formalmente. Mais pontualmente, o hábito de uivar (não apenas o de latir) tem associação genética mais clara com certas raças, como huskies siberianos e beagles (a raça do célebre Snoopy).

O estudo não avaliou diretamente a agressividade, mas uma medida mais ampla designada como "limiar agonístico". "Ela se refere ao nível de estímulo que faz o animal reagir a algo ameaçador, assustador ou incômodo", explica Lord. O trabalho revelou que essa medida é pouco herdável, ou seja, a variação entre os cães tem pouco a ver com a genética.

****

Receba nossas notícias direto no seu celular! Envie também suas fotos para a seção 'A cidade fala'. Adicione o WhatsApp da FOLHA por meio do número (43) 99869-0068 ou pelo link wa.me/message/6WMTNSJARGMLL1

mockup