Personagens de uma infância suja
As personalidades econtradas no Ciaadi são, acima de tudo, o que de mais rico pode-se descrever no local. Crianças e adolescentes simples, que expõem extrema carência e insegurança ao conversar. Nos textos que se seguem, os adolescentes, em poucas palavras, tentam explicar porque foram presos e o que pensam da vida, dentro e fora da unidade.
Ricardo, 18 anos, apreendido
por assalto à mão armada
- Ricardo, por que você foi preso?''
- Foi 157, meu irmão, mas eu nem quero saber não, tô nem aí, tô pouco ligando, quero ir pra clínica (para recuperação de adolescentes intoxicados), a psicóloga falou que eu ia, por que ninguém me fala nada? Quero ir pra clínica, chama aquela velha loira (a promotora, Édina Maria de Paula) aqui que eu vou falar com ela, se ela não me liberar pra ir pra clínica, eu vôo no pescoço dela; dela e da psicóloga, que já falou com a minha mãe pelo telefone e até agora não veio me contar nada, não quero nem saber, meu irmão, tô aqui há 36 dias, não aguento mais, os caras que caíram comigo já foram para a clínica, por que eu não fui ainda, vai lá ver, caralho, se não eu mato você também!'' (A psicóloga não havia contado o teor da conversa com a mãe de Ricardo para o adolescente porque havia descoberto que a família não queria mais que o jovem voltasse para casa).
Luiz, 17 anos, preso
por assalto à mão armada
- Eu caí (gíria usada como referência à própria apreensão) porque estava assaltando uma lotérica lá em Tamarana. Precisava da grana para comprar mais armas. O pessoal do meu bairro tava me ameaçando, e nem era molecada não, era gente 'de maior'. Eu não era de fazer essas 'fitas erradas' não. Mas estava com medo, não queria que os caras chegassem em mim sem que eu pudesse fazer nada. O pior é que, se eu sair, acho que vai rolar tudo de novo''.
Leandro, 14 anos, apreendido
por participação em um estupro
- Leandro, o que foi que aconteceu?
- Nada.
- Por quê você foi preso, não quer falar?
- Furto.''
- Leandro, você não quer ficar em uma cela sozinho, não seria melhor para você?
- Não.
Eduardo, 17 anos, apreendido
por assalto à mão armada
- Educador, você tem algum disco do Michael Jackson?
- Não, Eduardo, por quê?
- Eu sou fã do cara, Michael Jackson é o cara. Eu danço igual a ele. Uma vez, os educadores trouxeram uma câmera aqui e me filmaram dançando, foi muito legal. Olha aqui as fotos que eu tenho dele, tenho fotos desde quando ele era dos Jackons Five. Agora ele tá branco, parece mulherzinha, parece um monstro, mas mesmo assim eu gosto dele. (Eduardo sofre de déficit mental)
Carlos, 15 anos,
apreendido por latrocínio
- Você lembra daqueles turistas franceses que foram mortos em Foz do Iguaçu? Pois é, fui eu. Eu só ia roubar, mas um deles reagiu e aí eu atirei, Fui pego logo depois, nem deve jeito de fugir. Também tem outras coisas, tipo 157, 155, mas isso é o de menos. O que vale mesmo é homicídio, latrocínio, isso sim é crime de verdade. Também teve uma vez que um cara do Ciaadi de Foz xingou a minha mãe, aquele verme. Eu apertei o pescoço dele até ele morrer''. (Os educadores do Ciaadi não confirmam o homicídio praticado por Carlos na unidade de Foz do Iguaçu)





