Perobas da UEL emocionam artista
Silvana Leão
De Londrina
Um reencontro emocionante entre criadora e sua fonte de inspiração. Depois de 20 anos trabalhando apenas com lembranças guardadas na memória, a artista plástica Maria Ivete Ferreto dos Santos voltou a visitar o câmpus da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e, mais precisamente, suas perobas-rosa, alvo de verdadeira paixão. Sob o sol escaldante que envolveu a cidade na manhã de anteontem, ela pôde sentir de novo a forte energia das árvores centenárias. E não escondeu o prazer de poder tocá-las.
Paulista da região de Araraquara, Ivete dos Santos chegou ainda criança ao norte do Paraná e tornou-se, como tanta gente, uma pé-vermelho de coração. O pai, caminhoneiro na época, logo virou comerciante, fazendo com que a única filha crescesse no coração da pequena Londres, bem ali na Rua Sergipe, nas proximidades da antiga rodoviária. Daquele tempo, ficou a imagem de Haruo OHara sempre com sua câmera à tiracolo, à procura das melhores imagens.
O mestre da fotografia também lhe deu lições de vida, que ajudaram a definir a carreira de artista. Naquela época ele já nos dava verdadeiras aulas de sensibilização, nos chamando a atenção para imagens que poderiam passar despercebidas. Foi uma convivência muito importante na minha formação, admite.
Ivete dos Santos morou em Londrina até 1979 quando, junto com o marido, o jornalista Leonardo Henrique dos Santos, e as duas filhas, elegeu Curitiba como nova moradia. A presença marcante das cores vibrantes e do sol claro do norte, porém, jamais a abandonaram. No início do mês ela trouxe de volta suas telas, que estão expostas na Casa de Cultura da UEL. É a primeira vez nestes 20 anos que faz uma individual em Londrina, e o tema não poderia ser outro: Perobas. São 19 trabalhos de acrílica sobre tela, resultado de produção intensa de um intervalo de apenas quatro meses.
A artista plástica conta que ainda se lembra das narrativas do pai, encantado com as perobas centenárias e com a pujança da terra roxa. Ao chegar diante de um dos exemplares da árvore de tronco esguio e beleza incomparável, Ivete dos Santos emudece, admitindo a emoção. Alguns segundos olhando para a copa distante de nossas cabeças e ela retoma a conversa, se desculpando: Fico até piegas, mas olha, é uma verticalidade impressionante.
A pintora conta que sempre se sentiu profundamente incomodada com a insensibilidade do homem, que chegou e destruiu árvores que levaram anos e anos para atingir a plenitude. No caso da peroba, ela esclarece, são necessários 100 anos para que isso aconteça.
Ivete dos Santos confessa que, ao se ver diante de exemplares tão belos como os ainda vistos no câmpus da UEL, sente vontade de sair gritando e perguntando por que tantos foram destruídos. Ela reconhece que o desmatamento era necessário para dar lugar à civilização, mas critica a ganância do homem. Os ingleses responsáveis pela ocupação da região criaram um projeto ecológico, com pequenas propriedades onde deveria ser conservado pelo menos 10% da mata nativa, e nada disso foi respeitado.
Mesmo sem fazer parte de grupos preservacionistas, Ivete dos Santos sempre procurou imprimir uma filosofia ecológica em suas obras. Trata-se, segundo ela, da busca pela sensibilização do ser humano através da arte. Estudiosa do assunto, a artista garante: As árvores se comunicam entre si. É um crime quando uma delas é deixada sozinha. Há inclusive experimentos mostrando que uma planta sente profundamente e até grita à sua maneira quando outra é cortada ao seu lado.
Para comprovar a tese, Ivete dos Santos compara uma peroba solitária do campus, que já demonstra sinais de morte próxima, com outras protegidas pela parede natural formada por resquícios de mata. Ela lembra que, não faz muito tempo, perobas que nasceram no século passado foram destruídas por fortes temporais, provavelmente por estarem desprotegidas.
Há 40 anos, quando participou do 1º Salão de Pintores de Londrina, Ivete dos Santos já era influenciada pela beleza da peroba-rosa. Ela revela que a imagem da árvore lhe remete à idéia de braços abertos, prontos para abraçar o mundo. Eu a defino como uma vida que luta anos a fio em busca do sol, até sobrepor-se às outras espécies e, enfim, ganhar a liberdade. Enquanto isso, adquire esta magnífica roupagem que lhe é característica, diz, referindo à casca toda trabalhada do tronco.
Diante de uma grande raiz que está há anos descansando à beira do calçadão do campus (resultado, provavelmente, da destruição causada por alguma intempérie), a artista plástica sente-se maravilhada mais uma vez, enquanto admira os contornos e reentrâncias construídos pela natureza. O homem jamais poderia criar algo assim. É uma pretensão achar que podemos nos igualar à Criação.
O sonho de Ivete dos Santos, agora, é cantar sua aldeia fora do Brasil. Se tudo der certo, ela em breve estará mostrando imagens da peroba-rosa em Londres, de onde já veio convite para exposição. Será uma forma de mostrar aos ingleses que, além de fog, a natureza nos brindou com cores e formas únicas, que fazem a diferença.Após 20 anos, Ivete dos Santos volta a Londrina e tem contato com sua fonte de inspiração: as perobas-rosa
Fotos Paulo WolfgangUMA VIDA QUE LUTAIvete dos Santos e os troncos secos de uma peroba-rosa (ao lado): Eu defino a peroba como uma vida que luta anos a fio em busca do sol, até sobrepor-se às outras espécies e, enfim, ganhar a liberdade. Acima, a gigante ainda resiste, embora parece com pouca vidaA natureza faz sua arte (ao lado). Abaixo, a copa de uma peroba-rosa dá vida ao câmpus da UEL





