Londrina - "Não aceite nada de estranhos." "Não aceite carona de quem você não conhece." "Não pare para conversar com desconhecidos." Esses são apenas alguns dos conselhos que os pais costumam dar às crianças. Entretanto, muitos se esquecem de que pessoas conhecidas também podem representar perigo. Quando se trata de casos de abuso sexual, os dados mostram que os maiores vilões são conhecidos das vítimas, como pais, padrastos, avôs, tios e outros.
Dos 1.248 casos em atendimento até o final de setembro no Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Creas) 3 de Londrina, que trata da violência contra crianças e adolescentes, 583 são de abuso sexual. Destes, 301 ou 52% foram cometidos por familiares, mas esse número pode ser maior, já que em 153 casos ou 26% não foram identificados os agressores.
A psicóloga clínica Alessandra Rocha Santos Silva, especialista em violência doméstica contra crianças e adolescentes e coautora do livro "O Segredo da Tartanina", que visa facilitar a abordagem do tema com os pequenos, explica que no caso de abusos cometidos por pessoas conhecidas, de alguma forma a vítima confia no agressor. "Ele se utiliza do vínculo de confiança para iniciar as investidas e seleciona a criança por suas características", afirma.
Aquelas mais retraídas e que têm menor monitoramento por parte dos pais são geralmente as escolhidas, embora há casos em que crianças ativas e comunicativas também sejam vítimas, segundo a especialista.
"Geralmente o abuso se inicia com toques em partes menos íntimas do corpo e gradativamente vai aumentando para as mais íntimas. O adulto quer saber se a criança vai contar ou não. Para perceber o grau de vulnerabilidade leva tempo e o conhecido dispõe dele para ter outros contatos posteriores", destaca Alessandra.
Para prevenir esses abusos, o indicado é conversar desde cedo com as crianças, respeitando sua idade e seu desenvolvimento. "A partir do momento que seu filho já identifica as partes do corpo – mão, braço, cabeça -, entre 1 e 2 anos de idade, é possível começar a ensinar quais partes podem ser tocadas e quais não podem. Aproveite o banho ou a higiene da parte íntima para conversar. Quando estiver tocando a criança diga: ‘nesta parte as pessoas não podem te tocar, só a mamãe pode durante o banho porque está limpando você, mas quando crescer você mesmo vai se limpar’", exemplifica.
Alessandra ressalta que é importante tornar o assunto natural e por isso a abordagem pode ser feita também quando a criança estiver brincando com uma boneca ou fazendo desenhos de pessoas. "Vá mostrando ou desenhando as partes do corpo e questione o que pode e o que não pode ser tocado. Os pequenos precisam de coisas concretas, por isso não adianta colocar seu filho em uma poltrona e dizer que precisa conversar. Podem ser usados apelidos para nominar os órgãos genitais ou o nome técnico", destaca.
Quando a criança está um pouco maior, por volta dos 3 a 5 anos de idade, a abordagem pode se tornar mais abstrata e a conversa gira em torno dos carinhos permitidos e não permitidos. "Na cabeça e no ombro, por exemplo, pode. Na barriga, no bumbum, não pode. Muitos agressores justificam que o abuso é um carinho e os pequenos podem ter dificuldade em identificar o certo e o errado", justifica.
Crianças com 6 anos ou mais, segundo a psicóloga, já conseguem entender o conceito de bom e mau. "Explique que existem pessoas más, que querem agredir os outros e pedem para ver ou tocar as partes íntimas da criança ou mostram as suas e pedem para ser tocadas. Explique o que é abuso sexual, de acordo com o entendimento da criança. Ela vai sinalizar até onde você pode ir", diz.
De acordo com Alessandra, é importante os pais saberem até onde a criança quer saber. Perguntas como de onde vêm os bebês ou o que é camisinha são indicativos de que ela já está mais preparada.
Outro ponto importante é ressaltar que não podem haver segredos entre a criança e a mãe. "Ouvi isso uma vez e achei muito interessante. A criança só pode ter segredos com crianças da sua idade. Se um adulto pedir segredo, não pode. Os agressores sempre pedem que a criança não conte o que aconteceu, por isso essa instrução", destaca.

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