PERIGO - Para sobreviver, motoboys arriscam a vida
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quarta-feira, 23 de agosto de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
A adoção de alta velocidade por boa parte dos motoboys costuma ser associada unicamente à imprudência. Essa e outras práticas arriscadas, contudo, podem ter raízes em problemas sociais, como o desemprego. É o que sugere uma pesquisa inédita sobre a categoria no País, feita com 377 motoboys de Londrina, entre setembro e novembro do ano passado.
Segundo a professora de Fisioterapia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Daniela Wosiack da Silva, autora do estudo, o objetivo foi levantar o perfil dos motoboys e os fatores associados aos acidentes de trânsito. ''Não se sabe quase nada sobre a profissão, que não é regulamentada'', justifica. Que ninguém confunda o sujeito da pesquisa com os mototaxistas, alvos de discussões atuais na cidade; aqui, a figura é a do trabalhador que utiliza a motocicleta exclusivamente para transporte de mercadorias.
Foram ouvidos funcionários de restaurantes, lanchonetes, pizzarias, farmácias, papelarias, lojas de tinta, gás de cozinha e água, além de uma empresa de entrega terceirizada. Somente nesses ramos, os pesquisadores contabilizaram 410 empresas e 761 motoboys pouco mais da metade foi incluída no trabalho. Entre os entrevistados, 99% são homens e 65,8% tinham menos de 30 anos de idade.
''É uma população extremamente jovem. Uma das hipóteses que consideramos é que as empresas preferem motoboys nessa faixa etária porque acham que a produtividade é maior'', explica Daniela. Só que, para produzir mais, os jovens motoboys também constituem a parcela que mais se arrisca. A professora da UEL atribui o fato ao ''espírito de aventura'' típico da idade.
Outro fator que influencia no predomínio dos mais novos na profissão é o desemprego. Embora 80% dos motoboys ouvidos tenham escolaridade acima da média nacional, com 8 a 11 anos de estudo, eles não estão livres da crise econômica que afeta sobretudo os jovens. Estatísticas nacionais apontam que, em 2003, o índice de desemprego na faixa dos 18 aos 24 anos era quase o dobro da média nacional. Nesse cenário, o trabalho de motoboy desponta como uma opção relativamente ''fácil''. ''Muitos de nossos entrevistados relataram: se você tem moto, tem emprego. Mas da grande oferta de mão-de-obra, resultam precárias condições de trabalho e baixa remuneração'', diz.
O rendimento mensal declarado por 62% dos entrevistados foi de R$ 400 a R$ 800. Para garantir uma renda sustentável, grande parte dos motoboys se submete a longas jornadas: 42% relataram trabalhar mais de 10 horas por dia, sendo que alguns admitiram ultrapassar 19 horas. ''Eles chegam a dormir no emprego, entre um turno e outro. 84% revelaram ter trabalhado mesmo estando bastante cansados, o que aumenta o risco de acidentes'', sublinha.
Além disso, em 65% dos casos a remuneração estava relacionada ao número de entregas feitas. ''A própria característica do trabalho é a realização rápida de tarefas. O fator determinante é a pressão, não apenas das empresas, mas das pessoas em geral. Pense bem: se você quer uma pizza, você quer ela quente e depressa'', reflete Daniela. A consequência direta dessa pressão são as altas velocidades adotadas no trânsito e o envolvimento em acidentes.
A professora da UEL conclui que é necessário criar estratégias específicas para a redução de acidentes com esses profissionais e sugere uma reflexão de todos sobre o assunto. ''A questão é: como coincidir rapidez, agilidade e pontualidade com a segurança no trânsito? Estado e sociedade têm de repensar o papel que eles desempenham.''


