Periferia de Londrina sofre sem água
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quinta-feira, 01 de janeiro de 1998
Benê Bianchi Londrina 
Líquido raroNo União da Vitória, moradores fazem fila para encher baldes com água distribuída por caminhão-pipaQuem abre a torneira de casa todos os dias automaticamente, com a certeza de que vai encontrar água, nem pode imaginar a rotina de milhares de moradores de Londrina. Para eles, água é um líquido raro. As torneiras de bairros como o União da Vitória e jardim Cristal, na zona sul e Alto da Boa Vista, na zona norte, permanecem secas, não raras vezes, das 7 da manhã às 20 horas. Nos finais de semana, a situação é ainda mais caótica.
Da véspera de Natal até o início da semana, filas de pessoas de todas as idades, com baldes nas mãos, aguardando a vez para se abastecerem em caminhões-pipa era cena comum no jardim União da Vitória 4. O problema de abastecimento no bairro agravou-se devido a um vazamento nas tubulações e deixou os moradores do bairro, que normalmente ficam sem abastecimento nos finais de semana, totalmente sem água. Técnicos da Sanepar só descobriram o problema na segunda-feira e a previsão era de que a situação se normalizasse em um ou dois dias.
Faltou água na véspera de Natal na casa de Sandra Prado, que recebia visitas, no jardim Cristal. Aqui, para lavar roupa a gente tem que levantar às 5 horas da manhã
Estão falando que a gente está gastando muita água. Mas que água, se a gente não tem nem o que gastar, questiona a dona-de-casa Nereide Souza Correia. Ela tem dois filhos pequenos - um de um ano e três meses e outro de quatro anos - que mal têm água para beber. Quando vierem aqui para medir a água, nós não vamos deixar. Eles vão medir o quê? - arremata o morador Valdemir Roque de Lima.
Todos os moradores do bairro estão revoltados com a situação. Para piorar, a Cidade vive dias com temperaturas acima de 30 graus. A doméstica Helena Martinez diz que, mesmo com o calor, banho é só uma vez por dia. A água que chega de caminhão é usada para beber, cozinhar e lavar as roupas necessárias. A água chega ao bairro por dois caminhões-pipa, com capacidade para 12 mil litros. Segundo o motorista e proprietário do veículo Marcelo Carlos Mano, cada caminhão faz quatro viagens por dia até o União da Vitória.
O jardim Cristal, que já enfrenta a falta de água nos finais de semana, passou a conviver com a torneira seca todos os dias, na última semana. Na segunda-feira, os moradores ficaram sem água a partir das 7 horas, e até as 17 horas o abastecimento não tinha se normalizado. Para nós, a Sanepar diz que está havendo racionamento por causa do calor. Mas trabalho com gente de quase todos os bairros da Cidade e quando falo com eles sobre o racionamento, ninguém está sabendo. Falta água só aqui, reclama o cobrador de ônibus Dirso Claro Soares.
Quando falo com moradores de outros bairros da Cidade ninguém sabe de racionamento. Falta água só aqui, diz o cobrador de ônibus Dirso Soares, do jardim Cristal
A dona-de-casa Sandra Cristina Leal do Prado conta que na véspera de Natal ficou sem água o dia todo. Só começou a voltar de madrugada, e tinha visitas em casa. Aqui, para lavar roupa a gente tem que levantar às 5 horas da manhã. O aposentado Pedro Nascimento acrescenta que a falta de água tem causado grandes prejuízos também para quem está construindo no bairro. Esses dias mesmo, perdi um saco de cimento e mais alguns materiais porque comecei a fazer a massa e a água acabou no meio do trabalho. Resultado: perdi tudo.
A comerciante Suleide Gimenez da Silva tenta, há vários meses, calçar o quintal, mas como o trabalho está sendo feito por amigos que só podem executá-lo nos finais de semana, o serviço não sai. A família de Suleide tem casa no jardim Cristal há 12 anos. Sempre houve problemas de abastecimento.
Sem água, não podemos nem receber visitas - comenta Aurora Gimenez. A doméstica Solange Santos trabalha a semana toda e só tem tempo de fazer todo o serviço de casa, nos finais de semana. Tenho quatro filhos. Um deles ainda usa fraldas e não tenho água para lavar as roupas. Aproveitar as madrugadas para fazer o serviço doméstico está se tornando rotina no bairro. E ainda assim não é todo dia que tem água nas torneiras, diz.
Quando o assunto é água, moradores de alguns bairros da zona norte fazem coro com os da zona sul. Toda sexta-feira e sábado é uma novela aqui, resume o porteiro Valdecir Denez Pereira, morador do Alto da Boa Vista 1. O pessoal da Sanepar diz pra eu comprar mais uma caixa dágua de 500 litros, como se fosse fácil. Além da caixa, há os acessórios. É o mesmo que dizer para alguém ir na loja e comprar um Santana quatro portas.
Além da falta de água, os moradores de todas as regiões que sofrem com o abastecimento precário reclamam da conta que são obrigados a pagar todos os meses. Esse mês paguei R$ 22,00, diz Valdecir. Na casa de Aurora Gimenez, a conta consumiu R$ 46,00. O que eu gasto pago com gosto. Mas dá raiva ter de pagar uma conta dessas sem água na torneira.


