Líquido raroNo União da Vitória, moradores fazem fila para encher baldes com água distribuída por caminhão-pipaQuem abre a torneira de casa todos os dias automaticamente, com a certeza de que vai encontrar água, nem pode imaginar a rotina de milhares de moradores de Londrina. Para eles, água é um líquido raro. As torneiras de bairros como o União da Vitória e jardim Cristal, na zona sul e Alto da Boa Vista, na zona norte, permanecem secas, não raras vezes, das 7 da manhã às 20 horas. Nos finais de semana, a situação é ainda mais caótica.
Da véspera de Natal até o início da semana, filas de pessoas de todas as idades, com baldes nas mãos, aguardando a vez para se ‘abastecerem’ em caminhões-pipa era cena comum no jardim União da Vitória 4. O problema de abastecimento no bairro agravou-se devido a um vazamento nas tubulações e deixou os moradores do bairro, que normalmente ficam sem abastecimento nos finais de semana, totalmente sem água. Técnicos da Sanepar só descobriram o problema na segunda-feira e a previsão era de que a situação se normalizasse em um ou dois dias.
Faltou água na véspera de Natal na casa de Sandra Prado, que recebia visitas, no jardim Cristal. ‘‘Aqui, para lavar roupa a gente tem que levantar às 5 horas da manh㒒
‘‘Estão falando que a gente está gastando muita água. Mas que água, se a gente não tem nem o que gastar’’, questiona a dona-de-casa Nereide Souza Correia. Ela tem dois filhos pequenos - um de um ano e três meses e outro de quatro anos - que mal têm água para beber. ‘‘Quando vierem aqui para medir a água, nós não vamos deixar. Eles vão medir o quê?’’ - arremata o morador Valdemir Roque de Lima.
Todos os moradores do bairro estão revoltados com a situação. Para piorar, a Cidade vive dias com temperaturas acima de 30 graus. A doméstica Helena Martinez diz que, mesmo com o calor, banho é só uma vez por dia. A água que chega de caminhão é usada para beber, cozinhar e lavar as roupas necessárias. A água chega ao bairro por dois caminhões-pipa, com capacidade para 12 mil litros. Segundo o motorista e proprietário do veículo Marcelo Carlos Mano, cada caminhão faz quatro viagens por dia até o União da Vitória.
O jardim Cristal, que já enfrenta a falta de água nos finais de semana, passou a conviver com a torneira seca todos os dias, na última semana. Na segunda-feira, os moradores ficaram sem água a partir das 7 horas, e até as 17 horas o abastecimento não tinha se normalizado. ‘‘Para nós, a Sanepar diz que está havendo racionamento por causa do calor. Mas trabalho com gente de quase todos os bairros da Cidade e quando falo com eles sobre o racionamento, ninguém está sabendo. Falta água só aqui,’’ reclama o cobrador de ônibus Dirso Claro Soares.
‘‘Quando falo com moradores de outros bairros da Cidade ninguém sabe de racionamento. Falta água só aqui’’, diz o cobrador de ônibus Dirso Soares, do jardim Cristal
A dona-de-casa Sandra Cristina Leal do Prado conta que na véspera de Natal ficou sem água o dia todo. ‘‘Só começou a voltar de madrugada, e tinha visitas em casa. Aqui, para lavar roupa a gente tem que levantar às 5 horas da manhã.’’ O aposentado Pedro Nascimento acrescenta que a falta de água tem causado grandes prejuízos também para quem está construindo no bairro. ‘‘Esses dias mesmo, perdi um saco de cimento e mais alguns materiais porque comecei a fazer a massa e a água acabou no meio do trabalho. Resultado: perdi tudo.’’
A comerciante Suleide Gimenez da Silva tenta, há vários meses, calçar o quintal, mas como o trabalho está sendo feito por amigos que só podem executá-lo nos finais de semana, o serviço não sai. A família de Suleide tem casa no jardim Cristal há 12 anos. ‘‘Sempre houve problemas de abastecimento.’’
‘‘Sem água, não podemos nem receber visitas’’ - comenta Aurora Gimenez. A doméstica Solange Santos trabalha a semana toda e só tem tempo de fazer todo o serviço de casa, nos finais de semana. ‘‘Tenho quatro filhos. Um deles ainda usa fraldas e não tenho água para lavar as roupas’’. Aproveitar as madrugadas para fazer o serviço doméstico está se tornando rotina no bairro. ‘‘E ainda assim não é todo dia que tem água nas torneiras’’, diz.
Quando o assunto é água, moradores de alguns bairros da zona norte fazem coro com os da zona sul. ‘‘Toda sexta-feira e sábado é uma novela aqui’’, resume o porteiro Valdecir Denez Pereira, morador do Alto da Boa Vista 1. ‘‘O pessoal da Sanepar diz pra eu comprar mais uma caixa d’água de 500 litros, como se fosse fácil. Além da caixa, há os acessórios. É o mesmo que dizer para alguém ir na loja e comprar um Santana quatro portas’’.’’
Além da falta de água, os moradores de todas as regiões que sofrem com o abastecimento precário reclamam da conta que são obrigados a pagar todos os meses. ‘‘Esse mês paguei R$ 22,00’’, diz Valdecir. Na casa de Aurora Gimenez, a conta consumiu R$ 46,00. ‘‘O que eu gasto pago com gosto. Mas dá raiva ter de pagar uma conta dessas sem água na torneira.’’

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