Periferia
Lá estão eles. Seguros a um fio de arame, sacolejando com o vento na tarde interminável do Assentamento Nossa Senhora Aparecida, zona norte de Londrina. Um cai não cai, uma instabilidade. Um risco de ir ao chão. Um risco de desilusão. Indefesos contra a poeira que toma conta de tudo neste inverno do efeito estufa.
As duas crianças que tomam conta da família de brinquedo estão no barraco, refém do desamparo. O barraco está trancado. ''Tem bandido por aí de olho na nossa televisão''. Nem viram quando se deu a transformação. ''Tavam sujinhos, sujinhos''. Eles tomaram banho no tanque como se estivessem na mais refrescante das piscinas. ''A mãe lavou depois da novela. A gente tava dormindo''. O mais velho toma conta do mais novo. Pai foi catar papel. Mãe foi fazer faxina em casa do centro. Da janela, eles observam ansiosos seus companheirinhos. Estão orgulhosos. As partes brancas voltaram a ser brancas. ''Podiam tá na propaganda de sabão em pó''. No entanto, o habitat em que estão é implacavél. Logo terão, novamente, a cor da realidade. As crianças nem ligam. Só precisam dos seus amigos de pelúcia. De qualquer jeito. Só precisam espantar a solidão e abraçar alguém enquanto dormem.(Lúcio Flávio Moura)





