Peregrinação em busca de saúde
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2006
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Curitiba A autônoma Valguineres de Moraes, 34 anos, conhece bem o caminho de mais de 300 quilômetros entre Pitanga, município onde mora, e Curitiba. Várias vezes ao ano, ela e a filha Luana, de cinco anos, têm que vir ao Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) para serem atendidas.
Tenho que fazer acompanhamento aqui, porque os médicos detectaram risco de câncer no útero. Agora está tudo bem, mas mesmo assim tenho que vir com freqüência a Curitiba, explica Valguineres. A Luana tinha que se consultar com vários especialistas: cardiologista, neurologista. Hoje, só tem que vir ao HC por causa da rinite alérgica.
O caso de Valguineres não é isolado: segundo números da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), em média a cada mês 19 mil pessoas que moram nos outros 398 municípios do Paraná têm que vir a Curitiba para se consultar. Prefeitos alegam que há carência de alguns atendimentos de média complexidade nos serviços de saúde das cidades vizinhas à capital e do interior do Estado.
O ranking das especialidades mais demandadas varia mês a mês, mas neurologia, cardiologia e oftalmologia estão quase sempre entre as mais procuradas. Segundo a Sesa, 30% das consultas nos serviços de saúde pública de Curitiba são reservadas para pessoas de fora da capital. A secretaria alega que esta cota não sobrecarrega o atendimento: dos procedimentos reservados, menos da metade (em média 40%) são utilizados.
Para os pacientes, a rotina de vir a Curitiba para atendimento médico é cansativa. No dia em que foi entrevistada pela Folha, Valguineres saiu de Pitanga à 1 hora, para uma consulta no início da manhã. Ela e Luana vieram num microônibus da prefeitura do município onde moram.
A viagem é muito desgastante. A gente não agüenta. Quando tenho que vir a Curitiba, nem posso trabalhar, porque vai o dia inteiro. O microônibus está sempre lotado. Eu queria que o atendimento fosse mais próximo, queixa-se Valguineres.
E as viagens, além de cansativas, podem ser arriscadas. Em outubro do ano passado, uma ambulância da Prefeitura de Joaquim Távora (53 km ao sul de Jacarezinho) chocou-se contra um caminhão Scania, na BR-376, próximo a Ponta Grossa. No acidente, morreram seis pacientes que iam para Curitiba para atendimento médico e o motorista da ambulância.
O agricultor Vicente Iaschaqi, 47 anos, conta que nunca ocorreu nenhum acidente de trânsito nas oportunidades em que veio de São Mateus do Sul, em veículos da prefeitura, para Curitiba, para ser atendido no HC (a distância entre os dois municípios é de 150 quilômetros). A viagem não me incomoda, mas para a gente, seria bom se tivesse um atendimento mais perto, comenta Iaschaqi, que desde 1984 é submetido a consultas de rotina devido às próteses nas pernas.


