Licença para matar

Um pot-pourri macabro varreu o País, interligando o vermelho do sangue derramado com o confronto das idéias e dos sonhos, mergulhando contradições e teorias num cemitério aberto pela violência, onde o assassinato brutal é o fim antes do fim.
Num episódio da Guerra do Peloponeso, Péricles (político e orador do tempo considerado esplendor cultural da Grécia) bradou aos atenienses: ''Nosso ofício é enterrar mortos. Mas não devemos sair direto do cemitério para o campo de batalha. Que as palavras e a discussão nos digam primeiro o que fazer''.
Descanse em paz, Dorothy, que nasceu em Ohio, EUA, e morreu num fim de mundo chamado Anapú, Pará, estado campeão em conflitos de terra com mortos, extração ilegal de madeira, garimpo clandestino, trabalho escravo e pistolagem impune. A missionária tombou sob tiros, no delírio utópico de dar chance ao mais fraco na eterna luta contra o mais forte. Em seguida, duas mortes em confronto de sem-teto contra policiais militares, cumprindo ordem judicial de desocupação de área invadida em Goiânia. Nas reações, o governo lento mandou tropas federais para a área conflagrada no Pará, lembrando-se que desafiantes questões de ordem e segurança existem aqui mesmo, e não só no Haiti, para onde já foi, bem antes, o nosso Exército. Em Goiás, o velório das vítimas acendeu a chama da violência e três policiais foram caçados como se fossem facínoras.
Talvez algum dia se compreenda que não tem moral quem pede ''paz'' e usa a violência como arma. Que não existe violência legítima, embora fascinante, porque muitos sucumbem à tentação de aplaudir quando ela é exercida a seu favor.
Aí se pensa na paz, como se para conquistá-la bastasse somente esticar faixas brancas em festivas passeatas. Manifestações muito alegres e pouco pesarosas. A questão social não é caso de polícia, embora entre nós continue a ser tratada desse jeito.
É de se supor, então, que seria preciso convencer os ''outros'' (sim, a violência parte sempre dos outros, nunca de nós) a moderar ações e comportamentos. Mais tolerância, menos ressentimentos, pacificar reações do coração onde reside a raiz de todos os males. Entregar e baixar as armas. Desarmar os espíritos. Fazer campanha para armas de todos os tipos serem devolvidas. Que a cidadania fique sem armas, conscientemente. Quanto às armas do bandido, falemos sobre isso depois. Ao que parece, não vem ao caso, apesar dos estragos letais e lesões irreversíveis - físicas, morais e psicológicas.
Aí assistimos ao caso do promotor Tales Ferri Schoedl, que no litoral paulista tirou a tiros a vida de um rapaz e feriu gravemente outro, durante cândida festa musical na praia. O promotor foi libertado por decisão superior da Justiça. Um desembargador justificou: ''a lei não obriga ninguém a ser covarde''. Alguns aplaudiram. Outros choraram. É a morte feita espetáculo.

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