PERCIVAL DE SOUZA
O medo do juiz
Bandidos invadiram a casa de uma família, na zona sul de São Paulo. Sequência dos fatos: esfaquearam o cão que tentou resistir, roubaram, apavoraram e estupraram uma menina. O pai da vítima é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo.
O bando foi preso. O pai, constrangido, está preferindo apagar da história o que aconteceu com a menina. A violência sexual e a terrível humilhação fazem com que ele lute consigo mesmo para esquecer esta que seria uma considerável agravante na tipificação penal diante de tudo que de sinistro aconteceu. Ou seja: ou este fato consta do inquérito, que posteriormente será um processo, ou ele simplesmente não terá existido formalmente. Resumo, fora dos autos: nem tudo que está nas ruas está nos processos e nem tudo o que está nos processos retrata o que se vê nas ruas.
A realidade distante dos autos. E os autos distantes da realidade. Autos contam uma história. Bem ou mal. Ou pela metade. Quando um depoimento é ''orientado'', seja por quem for, a verdade não entra no cartório, tanto da Polícia como da Justiça. Verdade não se ''orienta''. Como os diamantes, ela é ou não é. Como ensinou Aristóteles, ''as coisas são ou não são; nada pode ser e não ser ao mesmo tempo e no mesmo lugar''.
Anos atrás, nessa mesma delegacia, a 34 de São Paulo, vi um homem em pranto convulsivo. A filha, também dentro de casa e por assaltante, havia sido estuprada diante dele e da esposa, amarrados. Diante do delegado, o homem suplicava: ''doutor, deixe que eu fique sozinho com ele por cinco minutinhos''. Sentia uma sufocante sede moral. O delegado, quase chorando junto, disse que seria pior. ''Nada pode ser pior do que eu estou passando, doutor''. Vi o rosto molhado de lágrimas do homem que contemplava o delegado. Ele carregava no peito o coração de todos os pais do mundo.
''Não há nada mais terrível do que a ignorância ativa'', escreveu Goethe, o dramaturgo-poeta alemão. Ignorância ativa, hoje, é fazer de conta que as coisas não são como realmente são. Deixar esse assunto exclusivamente nas mãos de uma maioria incompetente. Acreditar no ''politicamente correto'' distante de todos. Determinar comportamentos e resignações para os outros, e nunca para si mesmo. Assistir as teorias desabarem quando gente querida é atingida. Preferir a defesa dos direitos humanos não para quem os respeita, mas para quem os viola.
Legitimar violência intolerável é esquecer as vítimas. O drama do homem que é desembargador, mas acima de tudo é pai, é o amor pela filha tentando inutilmente passar uma borracha. Ele sabe, como homem das leis, que cumprir o ritual processual exige descrever fatos, fazer reconhecimento visual. Ele sente, como pai, que seria demais exigir isso daquela que tem seu sangue correndo nas veias. O desembargador descobriu que o mundo real é diferente do virtual. E preferiu não acreditar nele.





