PERCIVAL DE SOUZA
A jaula da tortura
O que acontece perto de nós impressiona muito mais do que fatos longínquos, como diria Eça de Queirós. Por isso, o resgate do empresário seqüestrado em Curitiba é carregado de cenas de forte impacto, documentadas pelos policiais do Tigre, o grupo policial responsável pela operação. Sobre elas, é preciso raciocinar.
Primeiro, a desumanidade. Vão para a cova, neste caso, certas teorias sobre crime e razões sociais. Porque absolutamente nada justifica manter um homem amordaçado, vendado, algemado e pés envoltos em cabo de aço fixado à parede.
Nada, absolutamente nada, justifica mantê-lo por três semanas alimentando-se apenas de uma fatia de pão por dia e espancá-lo sempre que ele, desesperado, pedisse por comida. Nada, absolutamente nada, justifica a imposição do sofrimento prolongado, arrastando-se pelo período de Natal e Ano Novo, forçando a perda de quilos, a desnutrição, a desidratação, o pânico e a pulverização psicológica. O nome correto para tudo isso é tortura. Crueldade em grau máximo. Segundo, o beijo de Judas que pode atingir a qualquer um - tudo como traição, nada como ósculo. O seqüestro foi engendrado por um ex-sócio da vítima, que recrutou para a tarefa sinistra o próprio filho. O perigo estava perto demais, alimentado pela cobiça que cega e entorpece. Num bando de sete homens, articulou-se tudo com a ganância em obter uma boa quantia em dólares. 15
Terceiro, a opção consciente pelo crime. Do bando fazia parte um ex-policial militar, que pensava saber tudo sobre malfeitores e policiais, conhecendo apenas a autogênese e subestimando autoridades. Imaginava que circulando por várias cidades diferentes, e fazendo contatos esporádicos mais difíceis de serem localizados, levaria a melhor. Achou que as investigações são imperfeitas e por isso pode haver crime perfeito, ao contrário do que Conan Doyle ensinou pela boca de Sherlock Holmes.
Os três itens se misturam e formam um caldo criminológico, que precisa ser visto com competência profissional e muita atenção à fartura de repugnância. Eunucos morais, os bandidos transformaram o cativeiro numa câmara de tortura permanente. A jaula do crime. Para eles, ali não estava um semelhante. Direito humano, nem pensar. O episódio pode ajudar a enfocar casos assim com menos graus de miopia. Quem sabe a ironia de Voltaire possa ajudar: ética é aquilo que nós queremos que os outros não façam. O bando dividia as tarefas como se fosse uma empresa criminosa, tudo com precisão e disciplina. Fotos da vítima em estado deplorável seriam vistas pelos familiares, para constrangê-los a aceitar todas as imposições. A permanência no cativeiro poderia ser ainda mais longa. Sem piedade ou misericórdia. A propósito: bandido, palavra que vem do italiano bandito, também quer dizer pessoa sem caráter, de maus sentimentos. Não é preciso dizer mais.





