PERCIVAL DE SOUZA
Promotor assassino
Parece incrível, mas um promotor de São Paulo, ainda substituto, foi a uma festa de luau, no litoral (Bertioga) e lá, numa briga de origem controversa, 2.005 chegando, deu 12 tiros com sua pistola com capacidade para 13, matando um rapaz de vinte anos. Feriu gravemente outro. O jovem que atirou, Thales Ferri Schoedl, 26 anos, diz que atirou em legítima defesa, para proteger-se de uma turba que ameaça pegá-lo numa dessas discussões imbecis de certas madrugadas. O palco estúpido da morte, a Riviera de São Lourenço, é um ponto de encontro de jovens.
Ninguém se importa muito com isso, mas nesses pontos jovens as confusões fazem parte do cotidiano. Um olhar, interpretado sob os mais variados prismas, pode ser considerado motivo suficiente para o vôo de garrafas, copos e cadeiras. Os tiros também fazem parte do cenário. Esperar lá fora é outra estratégia para massacres posteriores. Desejar feliz ano novo, para tantos, foi mais uma vez embebedar-se, perder a consciência e fazer certas coisas somente pensáveis durante libações alcoólicas. Muitos pais acobertam as alucinações dos filhotes.
O promotor que matou é jovem, e como tantos outros jovens, sentiu-se acuado. Foi preso numa casa onde estava hospedado, duas horas depois do crime. Na Polícia, autuaram-no em flagrante. O caso merece várias considerações. Primeira: o porte de arma, no caso fornecido apenas pelo exercício da função pública, sem o necessário preparo técnico exigido para o cidadão comum, é um equívoco. Quem entende de armas sabe que fazer doze disparos consecutivos é prova do mais absoluto despreparo, inclusive psicológico, para andar com arma de fogo. Além disso, ter o chamado porte não significa autorização para andar armado em lugares públicos. Tempos atrás, outro promotor, também em São Paulo, pensou que tivesse sendo emboscado e desceu do carro que dirigia armado, atingindo com um tiro sua própria perna. Mais um caso ostensivo de despreparo.
A segunda consideração se refere a quem desempenha uma determinada função e suas atitudes pessoais. No caso, o fiscal da lei, ou titular da ação penal, é quem acusa. Muitas vezes, automaticamente. Se usar contra si o mesmo critério que costumava usar contra os outros, o promotor estaria literalmente frito. Por isso, sempre é bom, para todos nós, pensar muito bem antes de arremessar a primeira pedra. As circunstâncias são agravantes ou atenuantes. Neste caso, acusação e defesa dirão, para variar, coisas diferentes, e certas peças são mais romances do que processos.
Aos 26 anos, a vida com alicerces ruindo. Choque térmico em torno de uma desgraça que fez outras vítimas. A cena do crime é, uma vez mais, o palco onde a sociedade humana desfila. A gênese é terrível. Mas tudo isso por causa de um olhar? De uma discussão? O calor da hora misturado com a agonia posterior da solidão.





