PERCIVAL DE SOUZA
Retorno ao pó
Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris. Isto é: lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás. São as palavras de Deus a Adão, segundo o Gênesis, o livro das origens, em seu terceiro capítulo. Não faltam teorias para explicar porque o ser humano conhece. Explicar porque eles ignoram é mais difícil. O conhecimento é fascinante, preocupava todas as mitologias. Assim, Adão e Eva comem o fruto do saber e Édipo, sem saber que é filho adotivo, chega a um ponto surpreendente, exatamente porque alguma coisa lhe é desconhecida.
Portanto, o conhecimento faz o ser humano. O desconhecimento também. Procurando definir o que é cultura, o professor de teoria cultural Terry Eagleton (Universidade de Manchester) diz: Diferentemente da álgebra, a cultura é algo que você aprende não por meio do estudo, mas pela participação. É antes como uma criança aprendendo uma língua do que como um adulto aprendendo a montar uma mesa. Segundo o professor, dizer que somos animais culturais significa afirmar que somos todos vulneráveis e carentes: criaturas como nós, que precisamos da cultura para sobreviver, o fazem em razão de uma deficiência em sua natureza. Padecemos, portanto, da vulnerabilidade comum.
A corrupção também faz parte de um certo tipo de cultura. É estarrecedor, como aconteceu há três dias, ver o advogado do traficante Fernandinho Beira-Mar, preso em Presidente Bernardes (SP), sendo condenado a oito anos de prisão em regime fechado pela prática dos crimes de tráfico, lavagem de dinheiro e evasão ilegal de divisas. Quer dizer: o advogado Paulo Roberto Cuzzuol e cliente nivelaram-se num mesmo tipo de cultura, que considera normal o comércio da droga, prática criminosa, endossando tudo o que se faz na relação fora da lei. E isso chegou a tal ponto que ambos acabaram fazendo a mesma coisa. O direito de defesa é sagrado, constitucional, parte preciosa na distribuição da justiça. Mas não é disso que estamos tratando aqui, mas sim o comportamento amoral e corrupto de alguém que agia como sócio e não exatamente advogado. Obviamente, são coisas completamente diferentes, embora banda podre também seja cultura. Em São Paulo, a Corregedoria da Polícia Civil uma espécie de polícia da própria polícia pediu a prisão preventiva de um delegado, Sebastião Costa Neto. Ele morava no mesmo apartamento que o traficante Massakazu Mizuno, onde havia um estoque de armas, munição e 68 quilos de cocaína. Detalhe: Mizuno foi resgatado por um bando armado do lugar onde cumpria pena (está condenado a 68 anos de prisão) e estava foragido há dois anos. O delegado trabalhava na delegacia no bairro de Campo Limpo, mas andava pisando num campo bem sujo. Impossível, num lugar assim, livrar-se dos respingos de lama ou afundar-se nela. Advogado e delegado viraram coveiros da ética e da moral. Voltaram ao pó.





