PERCIVAL DE SOUZA
Mocinhos e bandidos
A Polícia Federal, na sequência de operações com incomuns nomes de batismo, atacou nos últimos dias de Perseu que cortou a cabeça da mitológica Medusa com cabelos de serpente e olhar capaz de transformar gente em pedra e chegou ao Tribunal de Contas da União, prendendo pessoas capazes de transformar licitação em dinheiro. Curiosamente, o líder do Governo na Câmara Federal, o professor Luizinho (PT-SP), tomou a iniciativa de chamar a imprensa para dizer que o ataque ao TCU partira de uma ''facção da corporação, à revelia do comando'', ''colocando em risco as instituições e o processo republicano''. De quebra, atacou os federais que surpreenderam o publicitário Duda Mendonça numa rinha de galos do Rio de Janeiro. Tem muita gente que gosta de briga de galo? Tem. A lei (de proteção ambiental) diz que isso não pode. A lei ou os galistas?
O professor pirou. Nem que tivesse acabado de ler Voltaire (''ética é aquilo que nós queremos que os outros não façam'') daria para entender. O próprio Governo deu um puxão de orelhas no professor, que rapidamente foi à tribuna desmentir o que havia dito em entrevista e teceu elogios aos federais, meia hora antes criticados. Hilário. Grotesco.
Mas não foi um ato isolado, vejamos bem. O professor foi um ventríloquo, falando exatamente aquilo que muitos dizem e pensam. Ou seja: a rigor, na nossa República tem gente, e muita, que não quer uma polícia eficiente de jeito nenhum. Quando ela chega perto dos amigos que inspiraram Voltaire, torna-se incômoda. Inacreditavelmente, tem gente no Governo e perto dele entendendo que a polícia deva fazer uma leitura apenas seletiva das leis em vigor e também escolher alvos mediante prévia aprovação de setores influentes. Raciocina-se assim: se existe narcotráfico, não se perde tempo com contravenções e crimes considerados menos graves. Se um membro do governo é dono de empresa que frauda, melhor fazer de conta que nada está sendo visto. E quando policiais cumprem a lei violada por amigo do rei, que vira réu, devem ser imediatamente transferidos para bem longe, onde não possam incomodar mais.
O professor esqueceu-se da pedagogia profilática, defendeu gente surpreendida com a boca na botija, criticou asperamente a polícia de seu próprio governo, nem se lembrou de que a Federal é a Polícia da União. Fiasco que obrigou o ministro da Justiça a corrigir o professor que maltratou a mais elementar lição de casa.
Não estamos brincando de mocinho e bandido. Existem bandidos por atacado e mocinhos limitados por barreiras do varejo. Sejamos claros: temos bandidos demais e mocinhos de menos. Fazer ou não fazer. Ousar ou recuar. Ter dignidade e caráter ou ser pústula. Ser ou não ser. O professor infeliz precisa aprender: o peso do Estado já cai preferencialmente sobre os mais fracos. É preciso, finalmente, chegar aos mais fortes.





