PERCIVAL DE SOUZA
José sai, José entra
Palácio do Planalto, amanhã: o Ministério da Defesa fica sob nova direção. Sai um José, Viegas, e entra outro, Alencar. É o novo chefe das três Forças Armadas. A troca é motivada política e também militarmente.
Desde João Pandiá Calógeras, primeiro ministro civil a ocupar a então pasta da Guerra, no governo do presidente Epitácio Pessoa, que o comando civil das forças terrestre, marítima e aérea é discutido como sendo uma espécie de pilar democrático. Já tivemos, no País, ministro para cada força, um Estado-Maior conjunto e, desde 1999, um Ministério da Defesa, cujo primeiro titular, o senador capixaba Elcio Álvares, nem sequer tinha feito serviço militar. O sucessor foi Geraldo Quintão, da Advocacia Geral da União.
Segundo analisa o cientista político Jorge Zaverucha, professor na Universidade Federal de Pernambuco, o Ministério da Defesa, com sua atual configuração, tem na sua chefia alguém que não passa de uma ''rainha da Inglaterra, despachante dos militares''. Parece cruel, mas faz sentido, porque a criação do órgão, por Fernando Henrique Cardoso, teve a preocupação fundamental de proporcionar ao Brasil a possibilidade de ter assento no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Há mais, porém.
O pano de fundo dessa história é um equívoco monumental. Divulgadas fotos de um encarcerado em porão repressivo montado a chumbo, foi ele identificado como sendo o jornalista Vladimir Herzog. Não era. Tratava-se de um padre, que reconheceu a si próprio. O Exército divulgou nota oficial dizendo que no período do arbítrio institucional era assim mesmo. O presidente Lula chiou, abalado porque é ele o comandante-em-chefe das Forças, e por causa disso uma segunda nota procurou penitenciar-se. O equívoco: militares, ainda hoje, pretendendo legitimar o que se trata de uma ferida aberta com torturas e que insiste em não cicatrizar; o barulho em cima de fotos que não eram de quem se pensava, coisa que o Exército engoliu. Quem colocou tudo em pratos limpos, ou sujos, talvez, foi a Abin - Agência Brasileira de Inteligência.
Coincidentemente, com toda essa turbulência o Ministério da Defesa terminou um estudo que propõe uma mudança substancial na Escola Superior de Guerra, criada em 1950 no governo Eurico Gaspar Dutra, e que sempre representou o centro do pensamento militar. A idéia é transformar a ESG numa referência acadêmica militar, compatível com os novos tempos, até porque faz mais de um século que o Brasil não tem participação alguma em conflitos externos. É hora de reformular.
Agora, o pano de fundo dessa troca de ministro reaparece em forma de esqueletos que continuam trancados em armários. Passar a limpo essa história exige uma série de requisitos. Ninguém (do Governo) mexe na caixa de marimbondos. Existe uma força hermética, que decide o que se pode ou não fazer. Ela venceu.





