PERCIVAL DE SOUZA
O filho do matador
Criança, como sabemos, é página em branco a ser escrita. O pensamento invadiu a memória quando vi o menino de seis anos, espertíssimo, filho de Anestor Bezerra de Lima, 30 anos, preso e acusado de ser o temível serial killer que teria matado pelo menos onze taxistas, preso no Mato Grosso, com muitas vítimas em Minas Gerais e transferido para São Paulo.
O menino acompanhava a mãe, ex-companheira do matador. Mariana Ferreira, colega de redação, procurava ser gentil com o garoto e sem querer provocou um diálogo chocante:
- Quem é você?
- Sou o filho do Anestor.
- Quem é o Anestor?
- Ué, você não sabe? Sou filho do serial killer, o matador de taxistas!
As palavras foram pronunciadas com a maior naturalidade, próprias da inocência infantil. Vieram outras. Ainda respondendo a Mariana (''onde você mora?''), disse que ''meu pai quer matar a minha mãe''. Então, ''vive escondido, mudando sempre à noite de um lugar para outro''. Sorriu, feliz, quando lhe foi oferecido um guaraná.
Com 72 meses de vida, o menino já viveu e conhece dramas humanos de um adulto, sabe o que sabe (contas, números, fatos surreais, absurdos) sem frequentar escola, sem lazer, sem rumo, sem esperança. Podemos chamar Anestor de ''monstro'', inconformado com a falta de piedade ao matar motoristas de táxi com tiros certeiros na nuca (os psiquiatras poderão diagnosticar que um psicopata mata e deixa a sua ''assinatura'', uma espécie de marca registrada do crime). Mas não podemos deixar de perceber, e somos tentados a nada perceber, que o filho dele é inocente. Aos juristas, digo que não existe ''extensão de punibilidade'', porque não se estica a corda da culpa em direção aos familiares dos criminosos principalmente crianças, seus filhos. Seria injusto, cruel, desumano. Que culpa tem esse menino de ser filho de Anestor?
Meninos e meninas vão visitar pais e mães na prisão. Lá dentro, enquanto os condenados procuram esconder o choro (chorar na prisão é proibido: choca, intimida, constrange; dizem que ''não fica bem'') os filhos gritam, correm, divertem-se na ingenuidade que um dia vão perder. Quando gostam dos pais, tendem a vê-los como modelos. Assim eles são muito bons; ''não prestam'' aqueles que os mandaram para lá e os mantêm trancafiados. Algumas mães e alguns pais mentem para evitar esse confronto. Dizem até que companheiro(a)s foram levado(a)s pela morte. Muitos, na adolescência e na juventude, descobrem a verdade e lutam desesperadamente para identificá-los, mesmo no cárcere.
Vi o histórico repugnante de Anestor. É para se engolir em seco. Também vi o filho de Anestor, irmão de todas as crianças do mundo, com sua expressão pura que sobrevive entre os fabricantes do desamor. Mariana, atônita, ofereceu guaraná ao menino. Ainda bêbado de sonhos, ele bebeu de um gole só. Ainda não teve tempo de parar para a realidade.





