Máfia-Tour


Don Corleone, o personagem de Mario Puzzo levado para o cinema (''O Poderoso Chefão'') na interpretação magistral de Marlon Brando, transformou a cidade que inspirou a história num ponto de atração turística. É o que conta Tracy Wilkinson, do Los Angeles Times, sobre a cidade-base pioneira da Cosa Nostra. É a Máfia-tour.
O turista recebe orientações do tipo ''vire à esquerda, onde atacaram o bandido Giuliano''. A juíza Silvana Saguto diz que conseguiu confiscar dos mafiosos 6 bilhões de euros na última década. Mesmo assim, acha que isso não passa de uma gota no oceano. ''Nenhuma atividade econômica deixa de ser tocada pela Máfia. Assim que prendemos um criminoso, outro tomar seu lugar''. Segundo estimativa do grupo de estudos Eurispes, a Cosa Nostra vai faturar este ano cerca de 10% do PIB italiano, isto é, 100 bilhões de euros.
Se você quiser, é possível imaginar uma máfia-tour à brasileira. Em Alagoas, por exemplo, você pode passar por Guaxuma, a caminho de Maragogi, e indicar a casa onde PC Farias, o tesoureiro da campanha e Collor, foi assassinado. De quebra, em Maceió, pode-se olhar para o prédio da Polícia Federal onde está preso o juiz João Carlos da Rocha Mattos, capturado pela Operação Anaconda. Em Brasília, indica-se o lado do prédio da Polícia Federal onde fica a carceragem que trancafia Law King Chong, o contrabandista que minou alicerces paulistas com suas ligações perigosas e foi surpreendido, após anos de poder intocável, por uma Comissão Parlamentar de Inquérito. E assim iríamos, por vários cantos e cidades, tentando entender essas pessoas transformadas em atração, muitas delas causando perplexidade ao fazerem opção consciente pelo crime. Use sua imaginação à vontade. Afinal, como disse Jean-Jacques Rousseau, nascemos bons por natureza. A vida social, entretanto, corrompe essa condição inicial.
Máfias grandes, máfias pequenas, máfias embrionárias, máfias intimidadoras, máfias políticas e politizadas, máfias no poder, máfias nas instituições, máfias-hidra. Quatro dias atrás, foi preso aqui no Paraná, em Umuarama, um desses mafiosos tupiniquins. Alexandre Ciechanovicz, conhecido como ''Xã'', 29 anos, sobrinho de outro bandido-sequestrador, Pedro Ciechnovicz. Em seus cativeiros, mofaram vítimas que sofreram por muitos e muitos dias. A gang se especializou na extorsão mediante sequestro, transformando os escolhidos em meras moedas de troca, tratados com brutalidade documentada para apavorar os familiares. Alexandre é tão barra-pesada que a Polícia precisa manter em sigilo o nome do presídio para onde ele foi levado. É a nossa Máfia.
Corleone fatura com o turismo. Para nós, seria mais difícil. Temos medo ou constrangimento de testemunhar. É perigoso. Ou fatal. Preferimos denúncias anônimas. As máfias são pedras que rolam no caminho. Bandido e mocinho não são apenas personagens de filmes.

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