Shakespeare no morro

  Fiquei intrigado com o ato de boa-vontade e misericórdia cultural: a chamada ‘‘Faixa de Gaza’’, apelido da divisão entre as favelas Parada de Lucas e Vigário Geral, no Rio de Janeiro, foi palco há cinco dias de uma leitura de ‘‘Antônio e Cleópatra’’, de Shakespeare. O lugar é dominado por traficantes em guerra permanente há duas décadas. Durante a leitura, houve uma provocativa e prolongada queixa de fogos de artifício, o desfile acintoso de traficantes bem armados e uma platéia desatenta e curiosa. Maria Padilha, uma das participantes da leitura do dramaturgo inglês, disse: ‘‘Foi uma guerra para a gente e para vocês também. Mas foi uma experiência maravilhosa. Às vezes o silêncio é mais importante do que o grito e o riso’’.
  É preciso coragem para levar Shakespeare ao morro. Na abertura de Ricardo III, ele diz que ‘‘é lamentável que na nossa época loucos dirijam cegos’’. A frase ajuda a entender o que se passa lá embaixo do morro, onde muitos dos mortos sacrificados barbaramente na Casa de Custódia de Benfica sucumbiram exatamente diante da guerra do tráfico. Rosinha e Garotinho, governadora e secretário da Segurança, demoraram muito a tornar claro o resultado da matança, só esclarecendo os fatos quando a OAB-RJ ameaçou exigir transparência com um mandado de segurança. O casal não quis o Exército nas ruas, porque pretendia comandá-lo, e o drama se alastra. Ao contrário do governador Aécio Neves, de Minas, que pediu a força-terrestre para não ficar refém de policiais grevistas e venceu a parada política rapidamente.
  Digno de Shakespeare, autor, dentre tantas, da bela frase ‘‘o tempo não é algo que possa voltar para trás; portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores’’. Nada a ver, evidentemente, com uma adequação ao caso da loira de Londrina presa no aeroporto de Guarulhos por causa de desavenças conseqüentes de um triângulo amoroso. Aliás, um mandado de prisão vencido, mas que mereceu uma dedicação ímpar de policiais londrinenses que foram para São Paulo esperar a moça com um par de algemas para submetê-la a um constrangimento ilegal. Foi a roupa suja de um relacionamento que não nos cabe entrar no mérito, mas que certamente há de misturar frangos com frangas e triângulo em circuito perigoso, conforme se verifica na papelada legal sobre essa situação grotesca exposta em público.
  Tais enigmas da semana nos remetem a noções elementares de cidadania. Uma tentativa desesperada, talvez, de levar cultura através de Shakespeare para quem prefere reggae. A tal ‘‘Faixa de Gaza’’ lembra o nome do território palestino que Israel ocupou. A leitura terminou com tiros de verdade, tensão e medo. Confesso que achei tudo isso muito estranho e convido você a raciocinar sobre o episódio, tendo inclusive entendido bem melhor o que aconteceu do que eu.

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