PERCIVAL DE SOUZA
DITADURA DE CHUMBO
Daqui a três dias, os quarenta anos do golpe militar de 1.964 estarão na agenda de debates, seminários e conferências. Só nos quartéis reinará silêncio. Naquele 31 de março, meados dos anos tidos como dourados, iniciou-se em nosso País uma era de domínio dos princípios e doutrinas da caserna.
É uma situação histórica rara. Os vencidos falam e falam; os vencedores preferem ficar quietos. Para o resgate histórico desse período, gastei anos pesquisando para escrever ''Autópsia do Medo'' e ''Eu, cabo Anselmo''. O primeiro biografando o delegado Sérgio Fleury, cacique da repressão política, inserindo-o no contexto da ditadura; o segundo, a história de José Anselmo, líder de uma politização provocativa na Armada, causa da ira dos militares, um dos causadores de 1.964, e que consegui localizar numa peregrinação pelo nordeste. Ambos os livros, para minha satisfação, são referências bibliográficas na recente e substanciosa série de obras produzida por Elio Gaspari.
Ainda existem segredos a serem desvendados, apesar de tudo. Descobri que o tema é traumatizante, tanto de um lado como de outro, tanto que o meu empenho foi resgatar a história, sem fazer o pêndulo inclinar-se para este ou aquele lado. Existem os que preferem fazer ficção para apresentá-la como fato; outros que querem dividir os personagens apenas em ''gorilas'' e ''heróis'', reduzindo assim a perspectiva. Paixão e ódio ainda envolvem o tema, o que é compreensível para personagens reais, mas inconcebível para reconstruir fatos, conhecimento e análise.
Existem situações singulares. Alguns personagens fortes morreram depois que publiquei o livro de Fleury. Francisco Nascimento, ex-chefe do serviço secreto do DOPS, matou-se com um tiro. Não deixou nenhum sinal da razão de seu gesto. Raul Ferreira, o delegado que se vestiu de padre para interrogar e torturar os dominicanos que protegiam Carlos Marighella, também faleceu. Idem Leonora, a amante do delegado Fleury, irmã de um líder da esquerda brasileira, nessa contradição surreal transformada em romance avassalador. Também partiu Celso Telles, que proibiu a realização da necrópsia no corpo do delegado. José Vidal Fernandes, amigo de Fleury na Polícia, morreu na semana passada. O cabo Anselmo foi entrevistado apenas por dois jornalistas - rapidamente por Octávio Ribeiro, nos anos 80, e longamente por mim, que o levei para pontos históricos do nordeste, reconstruindo inclusive a dizimação do que restou dos militantes revolucionários que pretendiam implantar a guerrilha rural. Ainda bem que estive, dentre tantos, com essas fontes. Se não, preciosas pepitas históricas jamais poderiam ser garimpadas. Foram-se os anos de chumbo. Surgiu uma nova ditadura, a da mediocridade. Sobre o chumbo, ficaram cicatrizes, contradições, ambiguidades, morte, tortura e terror. Sobre a nova ditadura, está passando da hora de perceber como ela é insidiosa e devastadora.





