PERCIVAL DE SOUZA
Drogas para todos
Se as coisas são feitas para serem usadas e as pessoas para serem amadas, por que amamos as coisas e usamos as pessoas? Não se sabe quem fez essa pergunta instigante. Ela faz sentido nesta semana em que a Câmara dos Deputados aprovou reajustes na lei sobre venda e consumo de drogas, suavizando a situação do dependente e agravando a do traficante. Polêmico e explosivo, o assunto estará em pauta até deliberação final do Senado. Vamos usar o consenso sobre a matéria para raciocinar: 1-) claro que usuário de drogas deve ser tratado como doente e não como criminoso; 2-) evidente que o traficante é uma das pragas de nosso tempo. Portanto: 1-) defender enfoque digno para o usuário não quer dizer defender a droga; 2-) o ser humano deve ser valorizado. É gente. A droga, nociva, é objeto. Assim: 1-) não faz sentido implantar advertências terroristas em maços de cigarros e defender substâncias entorpecentes; 2-) não há mais o que discutir sobre malefícios causados pela droga à saúde. Entretanto: 1-) já antes da decisão da Câmara, usuário pagava fiança e não ia para a prisão; 2-) falso que usuário se misturava com bandidos (confira, se quiser, em qualquer Vara de Execução Penal). Alguns enfatizam: 1-) cada um usa o corpo como quer. Garantia individual, prevista pela Constituição; 2-) a sociedade é cínica em não ver a droga como um todo, e sim dividida em lícita ou ilícita. Não se gosta de dizer: 1-) traficantes e usuários são ligados umbilicalmente. 2-) Porque a relação entre eles é regulada pela lei da oferta e da procura. E nem que: 1-) Os traficantes são impiedosos. Matam os devedores e não toleram revelações ou delações; 2-) Os traficantes recrutam novos militantes, mobilizam entregadores de encomendas. Quando a Polícia aparece, o topo da hierarquia permanece invisível.
A oferta vai aumentar. Junto com ela, o consumo. Aí, também não se diz: 1-) quem teve problema desse tipo com familiar ou amigo não quer nem saber em ouvir falar de uso livre da droga; 2-) muito pelo contrário, quer banir a droga do convívio e livrar o ente querido dos malefícios. Claro que nessas horas: 1-) o terapeuta vai identificar causas e efeitos, nem sempre agradáveis; 2-) descobre-se que a libertação do dependente é dificílima (o que também se evita dizer, para o bem de todos e felicidade não sei de quem). Como isso é irrefutável, o Governo promete, agora, articular forças da sociedade para investir na prevenção. Assim, tem que admitir: 1-) a força do tráfico sempre foi muito mais forte do que a da prevenção, aliás infiltrada de ingenuidades e defesa pouco camuflada da droga, sedutora, em detrimento do usuário; 2-) a prevenção sempre deixou a desejar. Falhou e falha.
Atenção gregos, troianos e espartanos: esta é a luta da razão com a não-razão. A alienação agradável contra a lucidez sufocante. Questão de opção, consciente ou inconsciente. Uma lei é muito pouco para entender o cenário.





