PERCIVAL DE SOUZA
O DEDO DO PILOTO
Na Macondo de Garcia Marquez, descrita no romance Cem anos de solidão, muitas coisas ainda não tinham nome e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo. Na cadeia, preso que revela segredos de outro preso é chamado de dedo-duro, da mesma forma como se trata todo aquele que permite à Polícia descobrir certas coisas. Empregado tem o mesmo conceito de quem conta o que não deve para o patrão. A criação do homem tem uma pintura maravilhosa de Michelangelo, feitura e autor tocando-se os dedos. Dedos em riste significam acusações peremptórias, e apontá-los é uma delícia para pregadores que adoram decidir como deve ser a vida dos outros. Eu acuso, bradou com o indicador Émile Zola, no caso histórico caso Dreyfus.
No trânsito, dedos giram e sobem, com significados mais conhecidos ou enigmáticos, mas todos com perspectiva sexual. Nem Freud poderia imaginar. As crianças gostam de apontar com o dedo o que desejam. E quem está fora do País e não fala língua estrangeira, usa o dedo para sobreviver diante de uma vitrine.
Um dedo, no caso de um piloto norte-americano de aviação comercial, fez eriçar a sensibilidade brasileira ao ser fotografado quando desembarcava no aeroporto de Guarulhos. O dedo, admitido culturalmente em toda parte, presumindo-se baixo nível de manifestação (ato obsceno), quase se transformou em intriga internacional. A Polícia Federal foi aplaudida por enquadrar o piloto, que pretendia fazer uma ironia com as autoridades brasileiras, como se fosse o mais sutil dos homens, e em contra-partida os brasileiros padecessem de idiotia irreversível. Como ganha US$ 10 mil por mês, a fiança foi arbitrada em R$ 36 mil, doados imediatamente para uma instituição de caridade.
O dedo do piloto nos remete para certas manifestações, veladas e públicas, classificadas algumas vezes como injuriosas e difamantes. Nem se fale dos estádios de futebol, onde os palavrões fazem parte de gigantescos corais ensurdecedores. O piloto norte-americano pensou que fosse um inglês dos velhos tempos desembarcando na Índia. Já foi mandado de volta, sem direito a sair das dependências do aeroporto. Se um brasileiro fizer a mesma coisa na terra do piloto, pode até ser mandado para a base militar de Guantánamo, onde muitos estão confinados em incomunicabilidade absoluta. A honra nacional reagiu prontamente, e os policiais federais ganharam novo ponto nesses tempos em que a instituição promove uma profilaxia moral sem precedentes, trancafiando corruptos em várias instâncias e circunstâncias.
Alguns exagerados acham que se alguém de quem você não gosta lhe estender a mão para cumprimentá-lo, e o gesto não for retribuído, algo jurídico é previsto: você poderia ser processado por injúria real. É um preciosismo acadêmico, por sinal inútil. Nesse mundo da lua, tipificar penalmente a posição de um dedo é tarefa impossível. Tudo bem: rigor máximo com o piloto atrevido e arrogante. E entre nós mesmos, como o gesto do dedo será tratado de agora em diante?





