CAÇADOR DE MENINOS

O psicopata tem 25 anos. Pelo que se sabe, já matou doze crianças, em pontos diferentes do Rio Grande do Sul, e um motorista de táxi, no Paraná. As crianças, por sentir prazer em matar. O motorista, para roubá-lo.
Essa sequência sinistra não deveria ter o desfecho que teve se Adriano da Silva, o cruel matador, não tivesse fugido da prisão em União da Vitória (PR), com 27 anos de pena a serem cumpridos como autor de latrocínio e ocultação de cadáver. Além disso, seu histórico criminal não foi inserido no cadastro nacional apropriado, por uma série de detalhes técnico-burocráticos, insuficientes para explicar aquilo que é simplesmente inexplicável. Ou o saber encobre o que sabe, como diria o padre Vieira, ou o mais difícil é redescobrir sempre o que já se sabe, como diz E. Canetti.
Não vem ao caso chamar Adriano de ''monstro'', até porque o único monstro conhecido do planeta é a serpente do Lago Ness, na Escócia, assim mesmo com licença concedida em caráter precário. O que precisamos, isto sim, é entender as coisas que acontecem para preveni-las. Adriano ficava à espreita de suas pequenas presas crianças que trabalham nas ruas para ajudar as famílias. Vendendo sorvetes, rapaduras e doces. Engraxando sapatos. Eram assim as vítimas de Adriano. Ele se aproximava, puxava conversa, inventava um estratagema para atraí-las a um lugar isolado. Então, atacava: dominador das artes marciais, fazia a pequena vítima desmaiar com um golpe. Depois, a asfixia mecânica, lenta, implacável. Preso, disse que ''uma outra pessoa tomava conta'' dele na hora dos assassinatos. Isso é característico da esquizofrenia que quer dizer mente partida em forma paranóide. São alucinações, quando o personagem diz que recebe ordens em forma de vozes, sempre em tom imperativo. Na psiquiatria forense, costuma-se analisar se criminosos nessas circunstâncias são fronteiriços, isto é, estariam numa espécie de divisa tênue entre normalidade e doença mental. ''Muitas vezes confundem juízes e promotores, que os tomam por normais, quando em verdade não o são'', diz o psiquiatra Guido Palomba, em sua obra ''Loucura e Crime''. O caso de Adriano é precedido de muitos outros: o indivíduo age só, demonstrando ausência absoluta de altruísmo, piedade e compaixão, e costuma ser reincidente. Sente prazer no pânico das vítimas.
A questão é profunda, interessa a toda a sociedade, ajuda a entender muita coisa. O que não se pode é tratar desse assunto com espírito de repartição burocrática. Em nosso País, é perfeitamente possível alguém cometer crime num Estado, fugir para outro e assim viver impunemente. Não é possível admitir isto, mesmo porque detalhe absurdamente desprezado o assassino em série escreveu na parede da cela, antes de fugir, que iria começar um jogo, desafiando a Polícia. Coisa própria de psicopata. Preso, uma coisa ligou-se à outra: ''Perdi o jogo''. Para variar, ninguém quis prestar atenção nisso. A insanidade tem vários formatos. Adriano é um deles. O comportamento das autoridades pode ser outro.

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