PERCIVAL DE SOUZA
COMO SERÁ 2004?
Felizes anos novos, desejou o padre Antonio Vieira, num dos seus magníficos sermões. Sim, porque não há quem se contente com apenas um, mas sim vários. Já estamos na contagem regressiva para a transição 2003-2004. O escritor Albert Camus, pensando não no ano novo, mas no sentido da vida, diagnosticou a nossa eterna busca de respostas e o mundo respondendo em silêncio - a ''terna indiferença do mundo'', segundo o autor de ''O Estrangeiro'' e o menos conhecido ensaio filosófico ''O Mito de Sísifo''. Personagem que, contavam os gregos, foi condenado pelos deuses (porque os desprezava) a carregar uma pedra até o alto de uma montanha. Toda vez que ele chegava ao topo, com aquele terrível peso, a pedra rolava . Sísifo descia, apanhava a pedra outra vez e escalava a montanha. A cena não parava de se repetir, para o personagem que tinha paixão pela vida e odiava a morte. Camus reflete que a história de Sísifo é a nossa história, porque retomamos a vida numa noite sem fim. Porque ''cada um dos grãos dessa pedra, cada pedaço mineral dessa montanha cheia de obscuridade, forma por si só um mundo. O próprio esforço para chegar ao cimo basta para encher o coração de um homem''.
Vamos carregar as nossas pedras. O colega Mauro Santayana sugere que atualizemos o poema de John Donne, segundo o qual nenhum homem é uma ilha. E acrescenta: em nosso tempo, cada homem procura ser um bunker. ''O mundo que nos espera, se a mensagem de Cristo não for renovada, será o dos sobreviventes encasulados, cada um temendo o outro''. Ora, se é perfeitamente possível estabelecer uma ligação entre o que Camus diz e Santayana pensa, claro está que um nos ensina que não podemos desistir e outro nos estimula a mudar.
O presidente Lula, no final do ano, esteve com catadores de papel num bairro deteriorado em São Paulo e disse que eles, os humildes, precisam cobrar os que estão ''lá em cima'' - isto é, chegaram ao poder - já disseram. Senão esquecem. Precisamos carregar, exaustos, pedras (digamos, da esperança) que insistem em rolar? Mostrar coerência entre o que falamos e fazemos?
A escritora Patrícia Cornwell escreveu um livro chamado ''Retrato de um Assassino - Jack o Estripador - Caso Encerrado''. Que novidade é esta? Muito grande: ela se propõe a decifrar o mistério e identificar o matador, que seria um cidadão acima de suspeitas, o famoso pintor impressionista Walter Sickert. Foram cinco as prostitutas retalhadas. A escritora comenta: ''Sickert é um artista brilhante, muito respeitado pelos contemporâneos e pela crítica. Mas eu jamais penduraria um quadro dele na minha parede''. Nós, também: para os felizes anos novos, precisamos identificar claramente os esquartejadores de ideais, solidariedade e humanismo. Mesmo que eles sejam considerados brilhantes e respeitáveis. Ou também vamos precisar, daqui a não sabemos quanto tempo, de alguém que - como Cornwell - decifrou o grande mistério de 1.888, em Londres? Boa reflexão. E felizes anos novos.





