Dumont-Wright

Admirável: na semana em que os norte-americanos transformaram em comemoração de data histórica o primeiro vôo de algo mais pesado do que o ar, que insistem em atribuir aos irmãos Wright, um repórter do New York Times foi à nossa mineira Santos Dumont para fazer uma reportagem e atestar que é brasileiro o Pai da Aviação. Como se sabe, os Wright impulsionavam o seu invento com uma catapulta e cinco testemunhas em circuito fechado. Dumont realizou o sonho de Ícaro e pôs para voar a obra dele, sem nenhuma ajuda externa, sob os olhos de uma multidão. Não há o que se discutir, embora de modo geral nos Estados Unidos nem se saiba quem tenha sido Santos Dumont.
O episódio, que passou ao largo de observações entre nós, merece um paralelo. Somos vítimas daquela velha dependência de repetir automaticamente o que a maioria costuma dizer. Não foram os Wright. Mas é mais fácil dizer que foram. Ou seja, é gritante a incapacidade nacional de dizer ''não'' a tudo aquilo que está incorretamente fora do eixo, precisando urgentemente de um prumo. À semelhança do Times, é possível questionar a chapa branca oficial, ir de encontro aos personagens da História, percorrer as ruas e remar contra a correnteza em busca da verdade. De outra parte, vemos a insistência em prestigiar os Wright, quer dizer, em todas as áreas e setores apregoar-se um tipo de análise, perspectiva e solução sem levar em conta evidências e obviedades. Quer dizer: culto para os Wright, silêncio obscuro para Dumont. Mas, e daí? A Terra, indiferente, continua a girar em torno do sol. O mar não pára para você contemplá-lo. Assim tem sido, assim é: pessoas, instituições, tentam apresentar momentos e perspectivas com dolosa camuflagem. Se não aparecer alguém para revelar como os fatos realmente são, o embuste continua.
Esse tipo de comportamento não serve a ninguém. Atentemos, pois, que a ética virou disciplina acadêmica e não prática. Que a virtude tem pouco espaço e o pragmatismo muito. A poucos dias do Natal, com seu mágico poder de criar clima de fraternidade e solidariedade, de estar junto, de formular votos de felicidade, o assunto merece ser pensado e repensado. Das coisas mais simples às sofisticadas. Orson Welles foi arguto para observar: ''Muitas pessoas são bastante educadas para não falar com a boca cheia, porém não se preocupam em fazê-lo com a cabeça vazia''. Mudamos nós, ou mudou o Natal? - perguntaria Machado de Assis, abrindo caminho para cada um de nós dar a resposta. Se Deus-menino é um marco, e Natal quer dizer o seu nascimento entre nós, como ser humano, não fica difícil responder com o seu próprio coração. O repórter do Times na pequena Santos Dumont significa muito mais do que uma reportagem. É a constatação, é verificar in loco, é deixar de lado superstições e crendices. É o primado do real. Com essa cabeça e esse pensamento, tudo será bem melhor. Questão de fé. Mas também de esperança. De saber viver. Feliz Natal!

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