Começar de novo

Lembrei-me de Fernando Pessoa ao participar, como palestrante, em Curitiba, do I Encontro Estadual das Polícias do Paraná: ''Tudo é ousado para quem a nada se atreve''. O anfitrião, secretário da Segurança Luiz Fernando Ferreira Delazari, está ousando e se atrevendo. A cúpula das Polícias (Civil e Militar) estava lá. O projeto é iniciar uma nova era.
As novas cabeças pensantes e dirigentes dos esquemas de segurança pública pareceram-me interessadas em construir um modelo que deixe de lado o podre, o omisso e o condescendente sinistro tripé montado por uma ética deturpada, bastarda e consolide uma nova etapa. O secretário da Segurança confidenciou-me algumas características internas da máquina policial paranaense, corroída pelo que se apurou em várias investigações, tanto da CPI do Narcotráfico como do Ministério Público Estadual. Daí a necessidade urgente de mudar, criar uma nova mentalidade, levando em conta o prioritário interesse público, sem perder de vista que a política de segurança existe para contemplar a população com atendimentos fundamentais.
Os objetivos éticos a serem alcançados tiveram uma sequência impressionante em relação ao agradável final de semana que passei em Curitiba. É que dias depois um forte aparato da Polícia Federal desembarcou em Foz do Iguaçu, a bordo de um avião de transporte de tropas, o Hércules C-130 da FAB, para prender um bando de patifes corruptos, meia centena, que pensa que trabalhar na fronteira é ser ladrão e extorsionista, locupletando-se com o contrabando e o tráfico. Um bando cínico, porque a PF repetiu a dose do que já havia feito no mês de março, com a ''Operação Sucuri'', prendendo do mesmo modo vários policiais e agentes da Receita que insistem em confundir nuvem com Juno, coisa pública com mafiosa cosa nostra. Tudo isso na órbita federal, particularmente numa contaminada polícia rodoviária, que estava vendo em cada ônibus, cada sacoleiro, cifrões a serem arrecadados particularmente de forma escusa. Deprimente.
Pude perceber que as cabeças dessa que poderíamos chamar de nova Polícia querem esculpir um modelo de dignidade, sabendo que tal filosofia precisa chegar ao tronco e membros da organização policial. Procurei deixar claro que a população não tem preferências por esta ou aquela Polícia, ignora o tema árido da primazia na condução de inquéritos e o responsável pela pasta da Segurança precisa libertar-se da ilusão de controlar, de forma absoluta, todas as rédeas de comando.
A Polícia é cheia de segredos que só o tempo permite conhecer plenamente e quatro anos de mandato jamais foram suficientes para isso. Mas a linha de atuação pode ser definida, desde que se monte num time com os mesmos elementar não conseguirá nada aliás, exatamente como já assistimos em vários filmes anteriores.

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