Mistério americano

Todd, executivo da Shell (US$ 3,5 bilhões investidos no gasoduto que liga Bolívia ao Rio Grande do Sul) amanheceu morto no domingo passado, dentro de casa na Barra da Tijuca. Michelle, a mulher, ficou em coma até a última quinta-feira e também morreu. Dois agentes do FBI, a Polícia Federal dos Estados Unidos, chegaram ao Rio de Janeiro para acompanhar as investigações.
O casal foi golpeado de forma selvagem. Na casa, nenhum sinal de arrombamento ou roubo, embora se pudesse encontrar facilmente objetos e jóias de valor. O casal Staheli estava no Brasil há três anos. Diante de um mistério brutal como este, com todos os ingredientes de suspense, emoção e suposições, o imaginário fica fértil. Esta, a razão do sucesso dos livros de romance policial. Se bem escritos, fascinam o leitor, mesmo escapando dos dogmas a respeito de estilo e personagens, como Umberto Eco fez com ''O nome da rosa''. Já se fala de tudo, no caso concreto do Rio: intriga internacional, competição feroz no mundo dos negócios, desavenças familiares.
Tudo é prematuro. Mas numa investigação, nada se descarta. A presença do FBI entre nós pode significar uma aula, se o aparato legal do Rio permitir. Digo isso porque em alguns Estados o comportamento é de província: ao invés de saudarem com alegria a chegada de quem sabe mais, alguns preferem reagir como se estivessem sendo subestimados. Não é nada disso. No caso do FBI, ensina-se na sua Academia, em Quântico (Virgínia) que a busca da prova legal deve ser sempre obsessiva. E isso é colocado em prática, como alguns poucos policiais brasileiros, que tiveram o privilégio de fazer cursos no FBI. Nada se pode desprezar, sem contar ainda que laboratórios e tecnologia deles estão infinitamente à nossa frente.
O matador entrou, ou, quem sabe, os matadores entraram na casa sem deixar vestígios aparentes. Cogita-se até a possibilidade do ingresso no condomínio ter sido feito dentro do porta-malas de um carro. Ou, pensariam Hercule Poirot e Sherlock Holmes, através de um lago na parte de trás do condomínio. Mas como não estamos falando de Agatha Christie e nem Conan Doyle, é preciso deixar a ficção de lado, embora um bom romance não faça mal a ninguém, e cair pragmaticamente na real. Os assassinos em potencial, que são muitos, apostam na sua inteligência e costumam subestimar quem investiga. Julgam-se capazes de prever todos os detalhes e escapar ilesos. Apanhá-los é uma delícia para os profissionais da investigação, porque precisam usar rigorosamente a cabeça e jogar um xadrez imaginário. Os assassinatos consumados e os homicídios planejados, pelos mais variados motivos, têm personagens em posições antagônicas. As partes se observam e ensaiam movimentos. A grande platéia observa. O resultado da investigação pode ser preventivo e pedagógico. Ou uma grande decepção para a sociedade, cansada de ser fustigada pela violência explícita e, agora, dissimulada por cérebros do crime.

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