Liana e Felipe

Amavam-se, só queriam paz, e foram armar barraca e desligar-se do mundo numa mata isolada, perto de São Paulo, para viver seus sonhos. Para facilitar a reflexão, nem vou tocar em hábitos e costumes, relações entre pais e filhos, coisas proibidas ou permitidas, pequenas mentiras para garantir o retiro e coisas assim. Fico com Goethe: ''Tão verde é a árvore da vida, e tão cinzenta a teoria''.
Liana, 16 anos, e Felipe, 19, como Julieta e Romeu, foram surpreendidos pelo que de pior existe na raça humana. Dominados, indefesos, dóceis, submeteram-se a um longo ritual de matadouro, que terminou com tiro na nuca, para ele, e facadas profundas, para ela. Vivendo o mais pesado dos silêncios, o silêncio dos inocentes, tiveram a vida ceifada por um moleque de 16 anos, um amoral de 32 e a cumplicidade de um caseiro de 41. Indiretamente, existem mais dois co-autores no assassinato dos namorados. O caso mexeu com o Brasil, abalou jovens e pais, emergiu conceitos de educação e relações familiares. Para Felipe Caffé e Liana Friedenbach, tudo muito tarde, absolutamente irreversível. Pensando ser possível entre humanos viver intensamente a paz e o amor, sucumbiram de forma atroz, perversa, cruel.
Frente a frente com os pais de Felipe, ouvindo-os e pensando no que lhes dizer, vi nos dois rostos, olhares bem lá no fundo, a dor estampada. Além das esperanças, as lágrimas secaram. Falar com eles sobre Código Penal? Estatuto da Criança e do Adolescente? Desigualdades sociais geradoras de brutalidade a sangue frio? Libertei-me dos artigos e parágrafos, das teses e abstrações, abracei os dois e dei um beijo suave na mãe. Os olhos deles marejaram. Os meus também.
Dizem que o tempo cura. Isso é retórica de papagaio. O bálsamo que cura é o amor: apoio, compreensão, carinho, afeto, gestos de solidariedade. É isso que vale para o casal, e também para os pais de Liana (ele, advogado, alugou um helicóptero para jogar sobre a mata 10 mil panfletos com informações sobre a filha tão querida). Podem dizer o que quiserem, achar o que bem entender, emitir opiniões e juízos de valor. De uma forma ou de outra, todos juntos temos que responder: até quando vamos considerar que cenas como essas fazem parte natural da vida? Que matar, exterminar, barbarizar, trucidar, e estuprar são atitudes plausíveis de explicações que se encaixem numa inflexível previsão de ordem legal? Que faixas etárias definam o que deve ser mais ou menos rigoroso em termos de defesa da sociedade? E, pior: até quando vamos viver apavorados diante de nossas próprias teorias? As sanções devem ser punitivas e pedagógicas. Existem atos que não podem ser tolerados. Regras de convivência social possuem padrões éticos e morais. Não é possível a condescendência infinita. Porque, ao justificarmos a ceifa absurda das ovelhas, estamos protegendo os lobos. Não somos uma alcatéia. Somos rebanho.

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