PERCIVAL DE SOUZA
O CASO GALDINO
Triste a sina e os desdobramentos do assassinato do índio pataxó (queimado vivo em Brasília), praticado por rapazes que pretendiam apenas ''divertir-se um pouco'', segundo disseram para explicar o ato insano. Na síndrome decorrente, outro grupo de rapazes esteve na baiana Porto Seguro, no ano passado, para trucidar a socos, pontapés e cadeiradas o garçom de um restaurante.
Brasília e Porto Seguro uniram-se de vez. Estão no palco do descobrimento (ou ''achamento'', como se diz na carta de Pero Vaz) os sobreviventes pataxós, vendendo suas lembranças para os turistas. Também na ribalta os matadores, filhos de gente bem posta no Planalto. Igualmente se chama Galdino o infeliz que a ditadura militar, através de sua ''Justiça'' própria, confinou no Manicômio Judiciário de São Paulo, pelo fato de ser perigoso ''subversivo'', ou seja, benzia animais no interior e liderava um exército de peregrinos, miniatura de Antonio Conselheiro, vítima com seu povo, em Canudos, de um equívoco sangrento da República nascente.
O índio Galdino, que dormia na rua e foi incendiado, teve como algozes rapazes de famílias influentes que já estavam em gozo de prisão semi-aberta, eufemismo para o ato de dormir num lugar reservado para cumprir pena, em tese com direito a sair para trabalhar e estudar. Não era bem assim, como demonstraram os repórteres do Correio Braziliense, em matéria de grande repercussão. ''Intrépidos repórteres'', ironizou o jornalista econômico Luís Nassif, súbito defensor dos matadores e sarcástico crítico de quem distingue, como jornalista ou não, direitos, sanções e imposições da Lei de Execução Penal do deboche imposto à sociedade.
A postura de Nassif é fruto da babel em torno da trilogia crime-criminosos-punição. Invertem-se os papéis, o culpado vira vítima e da vítima nem se fala mais, como se morrer ou ser barbaramente atacado fosse coisa do destino. Tese controversa, como sabemos. A questão é: independentemente de ser índio o assassinado, como reage a sociedade ao ver o autor de um crime desse tipo passeando tranquilamente pelas ruas? Reage mal, sabemos todos.
Na novela ''Mulheres Apaixonadas'', da Globo, o enredo foi mostrando que quem espanca mulher faz doação de cesta básica e pronto: seu caso vai para o forno das pizzas. Está na lei, mas é inaceitável. Pouca gente sabe que é assim e essa impunidade (existe outra classificação?) para os agressores provoca revolta. A ponto de uma deputada usar a novela, agora, para apresentar um projeto de lei que vai procurar reverter essa situação. O clima de vale-tudo, endossado por idéias confinadas em gaiolas, tornam replicantes os que, sem querer, são seguidores do pensamento de Carl Jung: ''todos nós nascemos originais e morremos cópias''. A sociedade está perturbada justamente com a ausência de regras, a falta de normas. Aquilo que de maneira mais empolada os sociólogos chamariam de anomia.





