ANÕES DE ITU

A cidade de Itu, no interior de São Paulo, tem a fama de ter tudo grande, por causa das brincadeiras de um antigo comediante. Em plena praça principal existe um telefone público gigantesco, e por toda parte são vistas coisas imensas de sorvetes a doces, de copos a chaveiros. Foi lá que assassinaram o empresário José Nelson Schincariol.
Entretanto, o comportamento das autoridades locais Polícia, Ministério Público e Justiça foi digno de Lilipute, o país que Jonathan Swift imaginou em seu romance ''Viagens de Gulliver'', onde os habitantes tinham uma altura que não passava de seis polegadas. As autoridades, todas, transformaram-se em anões de Itu, ocultas sob a capa ''segredo de justiça'', cujo único objetivo era afastar a imprensa do caso.
Fui conferir ''in loco'' detalhes do caso. Entre interesse da sociedade e o interesse em ocultar fatos, fico com a sociedade, e ainda assim sem confundir o interesse público, que defendo, com interesse do público, que pode ser mórbido. Rapidamente, foi preso um garçom, Valdinei Sabino da Silva. A Guarda Municipal local, que não tem poder de polícia (ora a lei...), foi à cena do crime, selecionou testemunhas e levou um álbum fotográfico para reconhecimento de suspeitos. Uma testemunha apontou como sendo o assassino um jovem bem cabeludo, que seria o garçom, que tem a cabeça completamente raspada. Fui à casa do empresário e percebi que essa testemunha teria que reconhecer alguém do outro lado da rua e no escuro. Também apurei, na Guarda Municipal, que essa testemunha olhou aos fotos, viu o cabeludo, perguntou se ele já estava preso e diante da resposta negativa afirmou: ''Então, foi ele''.
Sabe-se em qualquer Fórum que testemunha desse tipo é definida como prostituta das provas. Depois, vi na Polícia Científica que as impressões digitais recolhidas no carro da vítima não coincidiam com as do garçom e, além disso, um exame residuográfico mostrou que não havia vestígio de pólvora nas mãos dele. Ou seja: faz mais de duas semanas que se sabe que esse infeliz era inocente. Mesmo assim, foi mantido preso até serem capturados os verdadeiros autores, por outro departamento da Polícia que não o de Homicídios (uma vergonha em termos de polícia especializada). Apesar de toda essa precariedade, o juiz local decretou e manteve a prisão e o promotor, fiscal da lei, não abriu a boca sobre a aberração. O time de anões de Itu cresceu quando a mãe do garçom, desesperada, procurou seis advogados da cidade e nenhum deles quis abraçar a causa, curvando-se aos poderosos. Assim, sepultou-se em Itu a Justiça, a autoridade, a cidadania, o respeito, a dignidade e as mais elementares normas de Direito. Acho que todos os partícipes da ópera-bufa deveriam tentar se redimir pedindo perdão em praça pública ao garçom. Mas isso exige muita grandeza moral. É mais fácil aconselhar o garçom a acionar o Estado por danos morais, como se dinheiro apagasse cicatriz. Pôncio Pilatos não faria melhor.

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