GUETO DO FALCÃO

Estava programado e bem anunciado, mas a TV Globo desistiu de apresentar hoje, durante o ''Fantástico'', o documentário ''Falcão, os meninos do tráfico'', feito pelo rapper MV Bill e seu empresário Celso Athayde. ''Foro íntimo'', disseram eles. Na tarde de hoje, o assunto tráfico e violência será debatido pelo ''Jamanta'', personagem radical da ''Turma do Gueto'', no programa do Netinho, na TV Record. Estarei lá.
Por que MV Bill afinou? Porque no início da semana o traficante Marcinho VP, o ''Juliano'' do livro ''Abusado'', de Caco Barcellos, foi estrangulado lentamente (não houve tiros nem facadas) até morrer. O corpo foi deixado numa lixeira do pátio de Bangu III, parte de um complexo prisional cujo diretor foi emboscado e assassinado na semana anterior. Mais emblemático, impossível. No enterro de VP, que parecia funeral de chefe de Estado, apareceu uma misteriosa coroa de flores como homenagem de Luiz Eduardo Soares, nada mais nada menos do que o secretário nacional de Segurança Pública. Soares negou o envio das flores, politicamente transformadas em espinhos.
Este mundo-cão real intimidou Bill e Athayde, que preferiram ver as coisas sob a perspectiva dos abandonados sociais cooptados pelo tráfico. ''A verdade é uma terra não palmilhada'', ensinou Krishinamurti, o filósofo indiano. O documentário ''Falcão'', que algum dia talvez seja exibido sabe-se lá onde, mostra a história de adolescentes preparando a droga para ser vendida, portando armas pesadas como se estivessem brincando de mocinho e bandido que podem estar vivos hoje e mortos amanhã. Aqui, o ponto. ''Jamanta'' diz na entrevista de hoje que um dos objetivos da série da Record é de alguma maneira lançar luz sobre o assunto e deixar claro que para reverter essa situação é preciso fazer algumas coisas. Netinho quis saber que diferença havia entre isso e a verdade das ruas e eu respondi que no caso ficção e realidade se confundem. Mas realidade é pior. Quer dizer: não basta impressionar-se só com documentários e filmes.
Uma recente peça publicitária da Rino questiona tudo isso de maneira inteligente: ''Se todo mundo deseja para todo mundo dias de paz, amor e uma vida mais justa, mais humana, mais cordial, mais feliz, por que será que todo mundo precisa dar as mãos, abraçar a Lagoa, a Pampulha, o Ibirapuera e o Planalto pedindo, sempre, tudo de novo para todo mundo''? Ainda no anúncio da Rino: ''Ou tem muita gente fingindo que se ama ou tem muita gente fingindo que acredita (...) Ou a gente muda a mensagem ou a gente muda de atitude. Depende de nós''.
Alguns alucinados preferiam chamar VP de Mao, para lembrar o Tse-Tung, porque eram as iniciais do nome dele, Márcio Amaro de Oliveira. É fácil aplaudir de longe. Mas é impossível conviver com a realidade quando ela pode vir rapidamente em sua direção na forma de morte e recados sinistros. MV Bill percebeu, finalmente.

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